Meus Textos

 

   
     
 

Conquista


          Era um belo final de tarde, verão de dezembro de 2008, na cidade de Lavras da Mangabeira, devia fazer perto de 31 graus. Uma noite de lua cheia, ela estava magnífica, sua luminosidade embelezando a praça da Matriz de São Vicente Férrer saudando os intelectuais de sua terra. Afinal, Lavras, estava em festa, com uma diferença de outros tempos. Uma infinidade de motocicletas circulando por todos os lados. No percurso da casa da minha sobrinha Ariete, até a praça da Matriz, contei doze motos que passaram por mim, foi um susto, não sei ao certo se pelo trânsito das motos ou pela expectativa da comenda que iria receber.
         A missa começou com meia hora de atraso, a celebração de um casamento fora o motivo, coisa de praxe, a noiva retardou além do esperado.Os acadêmicos foram chegando um a um no pátio da Matriz de São Vicente Ferrer. Enquanto aguardava-se o término do casamento cumprimentávamos exultantes. A escritora norte-riograndense, Maria do Céo Costa, que me acompanhava, aproveitou o momento para registrar tudo com sua câmera fotográfica.
         A celebração de Ação de Graças foi concelebrada pelos acadêmicos, Padre Amorim e Padre Evaldo. O comentarista foi o acadêmico Emerson Monteiro, a primeira leitura pelo presidente de honra, Linhares Filhos, o Salmo por Egídio Barreto, enquanto a segunda leitura por Gilson Maciel. No ofertório as bandeiras, da Academia Lavrense de Letras e do Município de Lavras Mangabeira foram erigidas em passeata até o altar pelos acadêmicos, Jeová Batista e Luiza Correia e consagradas por Padre Amorim.
          Após a missa dirigimo-nos em comitiva até a Câmara Municipal. O presidente da ALL Dimas Macedo fez a abertura da solenidade, seguida do discurso do presidente de honra Linhares Filho, a palavra da Prefeita Ednilda Sousa Oliveira Lopes e por fim o poeta Zé Teles saudou a todos com um belo cordel. O segundo momento foi a entrega dos diplomas e medalhas de cada acadêmico. O cerimonialista foi chamando cada pela seqüência numérica das cadeiras, e quando citou a cadeira vinte e oito, meu coração foi a mil batidas por segundo: Rosa Firmo, uma pobre mortal sendo imortalizada nas letras, uma quitaiuense recebendo uma insígnia. Quem diria aonde cheguei! Aquela criaturinha rude e tímida do sertão, alfabetizada em casa pelas irmãs mais velha e só após 12 anos retoma aos estudos, rompendo paradigmas da família. Era verdade, estava lá eu, sendo aplaudida por intelectuais, políticos e, sobretudo, por meia dúzia de familiares. A medalha, recebi da irmã Maria Firmo, minha primeira professora e madrinha, o diploma pela professora da Escola Joaquim Leite de Quitaiús, ------Com certeza essa noite estará sempre presente na minha mente e no meu coração.
         Como consegui essa façanha? A resposta é simples: fui sempre uma jogadora: jogo sempre para ganhar ou perder, nunca para me rejubilar com apostazinhas, nunca busquei prêmio, nem me candidatei a concurso literários, pouco divulgo meu trabalho; apenas minha crença que é fiel como ser humano e se traduz em resultados positivos pelo investimento consciente dedicado com afinco a pesquisa, a leitura e a escrita. As qualidades que sempre me acompanharam: determinação, garra, luta e alegria de viver.
          Estou muito honrada com o título, porém, todo título vem com uma carga de responsabilidade. Estou tranqüila, pois responsabilidade é um dos valores corporativo que cultivo.
          O momento da outorga do título, em silêncio, dediquei-o em primeiro lugar a meu Deus, a seguir a meus pais, a meu esposo Francisco José, a minhas duas irmãs e professoras: Maria e Miguelina, as irmãs Rosinha e Socorro que me deram guarida em suas casas quando saí da Tapera para cursar o ginasial em Cedro, dediquei especialmente a meu patrono, Francisco Bezerra Sampaio que me lançou no mundo das letras, a minha irmã Seve que me acompanhou em toda a vida universitária em Fortaleza, enfim, a meu amigo e mentor intelectual Dimas Macedo pelo incentivo e apoio.
         O próximo e grande sonho? Tornar a Academia além de uma agremiação de sucesso em uma saída para motivar a juventude lavrense gerando um celeiro de bons leitores e escritores.

 


Natal, 18/12/2008

 

 
     
 

Pensamentos



             Enche o rio do teu corpo com o bálsamo da fraternidade. Sejamos acolhedores, a natureza agradece.


              Tenhas a independência de um pássaro, e garanta seu bem estar interior.


              Nasci para vencer batalhas, conquistar espaços, conviver com a complexidade.
 


            Se nós humanos formos mais solidários uns com os outros, o mundo não sofrerá fome de afeto,
 


           Reserve um tempo, detenha-se em silêncio diante de uma flor, de um pôr-do-sol, de uma cachoeira e
absorva a essência.

 

 
 

A BARRAGEM QUE VETOU O RIACHO DO ROSÁRIO


Era um dia de sol escaldante, a notícia correu célere em torno da construção da barragem do Rosário, que vetaria as águas vertentes do riacho do mesmo nome; surpreendeu, inquietou a população quitaiuense.
A Vila ficou em polvorosa, as vantagens posteriores, pouco interessavam. A curiosidade do povo, a ansiedade, concentrava-se pela grande novidade e os anseios de lograrem algum dinheiro das diversas formas com a construção, com a indenização das terras, essas questões estavam em primeiro lugar.
Seria verdade! O Quitaiús! - Quanto merecimento! Parece milagre do Padre Cícero, acontecimento desse porte, para um distrito tão esquecido em tudo e por todos.
Quitaiús, distando da capital, 453 km, onde um povo sofrido, de muita coragem, honesto, e tenaz, que vivem basicamente da agricultura de subsistência e alguns de aposentadoria do FUNRURAL. A cidade hoje calçamentada, sistema de abastecimento d’água, antes, conhecida como Barro Vermelho. Piçarra vermelha, que empoeirava tudo; da roupa mais íntima, até a alma de quem ali transitava.
Em tempos passados, o lugarejo cheirando a poeira, a urina de animal, o transporte mais comuns nos idos dos anos cinqüenta, era no lombo dos animais, que os donos de sítios que compõe o distrito, se deslocavam para a Vila fazer a feira no mercado repleto de barracas com produtos oriundos de Crato, Juazeiro do Norte e artesanato da terra, na bodega de seu José Mendes se comprava farinha e tomava-se uma bicada de aguardente, de volta para casa parada certa, comprar o pão-do-reino na padaria de Virgílio Clemente.
Aos domingos a Vila ficava abarrotada, os cavalos, os burros e jumentos, ficavam amarrados nas grades das portas das bodegas. Afivelados com brida, estribo, cilha e adornados com arreios de couro; as selas e as coronas acolchoadas, cuidadosamente bordadas pareciam rechilieu e ainda coberta com um coxim, macio de fio cru. Os proprietários se aboletavam nos balcões com o chicote em punho; o cheiro da cachaça, do torrado e dos cigarros de fumo artesanal, impreguinavam o ambiente. Hoje, com a globalização, Quitaiús, tem outro aspecto, com a invasão dos meios de comunicação, a televisão especificamente, mudou os costumes do povo; as bodegas se transformaram em frigoríficos, os armarinhos se tornaram lojas de confecções, roupas oriundas das grandes cidades, como Caruaru, Juazeiro do Norte, até mesmo de Fortaleza e São Paulo, o mercado já não mais funciona, houve um tempo que a feira aos domingos era bem movimentada.
São Francisco viveu décadas no anonimato, esquecida dos políticos e dos seus filhos que de lá se dizimaram. Os fundadores e outros que por lá permaneceram, contribuíram o máximo que puderam para a Vila sobreviver e prosperar. As questões políticas, as decisões para melhoramento do distrito, eram todas tomadas na sede, Lavras da Mangabeira, tudo ficava emperrado. Posteriormente, tomou um leve impulso, veio acontecer alguma mudança somente na década de 70, quando os filhos da terra ocuparam cargos políticos. Em primeiro lugar, Olavo Leite, como prefeito melhorou o lugarejo em alguns aspectos, como, pavimentando a vila, instalou uma lavanderia pública, construiu o açude público dos Três Irmãos, a praça da Matriz e, em seguida seu filho Carlos de Olavo, juntamente com Raimundo Morais, Margarida Bezerra Maia, como vereadores, entre outros, deram continuidade a algumas obras. Novamente o progresso estacionou em vários aspectos, como no comércio, Quitaiús regrediu. Veio o prefeito Francisco Aristides, maquiou um pouco mais a Vila; realizou algumas obras de melhoramento.
Nesses últimos anos, sob decisão governamental, através do projeto Caminho das Águas, do Governado Tasso Jereissati, para irrigar os vales do sertão cearense, através da Secretaria de Recursos Hídricos, e a SOHIDRA, anuncia uma grande novidade para Quitaíus, um grande açude! A obra materializou-se. A construção teve inicio em 1998 e término em 2001, pela Consultoria da EngeSoft, e da Construtora E.I.T. Empresa Industrial Técnica S/A, para assim prender as águas do riacho e ceder lugar ao grande açude do Rosário. O vigésimo quinto entre outros do Ceará. Como primeiro em termos de capacidade de armazenamento d’água, temos o Castanhão, em segundo Orós, em terceiro Banabuiú.
A notícia correu os quatros cantos da Vila. O povo se alvoroçou. Instalou-se um zum, zum, zum, um barburim, um corre, corre, todos querendo saber como ficaria a situação dos moradores da ribanceira do riacho. Quem iria construir a barragem? Muitas outras interrogações.
Começou o rebuliço, a chegada da equipe de engenheiros e técnicos da Secretaria de Recursos Hídricos, para reunir os moradores e explicar todos os detalhes. Os líderes da comunidade, por outro lado também reuniram-se com os trabalhadores da roça, os meeiros, para discutirem como ficaria a situação, bem como dos proprietários das terras etc. Primeiro ouviam as propostas do coordenador da equipe da SOHIDRA, em seguida analisavam as vantagens, os prejuízos que iriam causar; para em seguida decidirem sobre seus destinos. Os pobres lavradores, enquanto ouviam os líderes da comunidade, ficavam atentos e aceitavam suas opiniões; logo em seguida quando reuniam-se com a equipe do governo, já mudavam de opinião, entusiasmado com o pouco investimento que poderiam receber pela indenização dos bens e por seus trabalhos desenvolvido nas terras, ficavam em cima do muro. Acreditavam que iriam até enriquecer com as pequenas quantias. Sequiosos por dinheiro, sem uma análise mais aprofundada; o que de fato eles tinham como direito. Finalmente, virou o jogo, e acataram a proposta do governo. Alguns diziam, “Ah! Ora rapaz, a gente com R$ 5.000,00 no bolso vamos mesmo é arrumar nossas vidas; vamos comprar móveis, e, ainda sobra algum dinheiro para outras coisas. Vamos lá mais, escutar opinião de Nenzão, de Rose, de Liduina, que nada! O que a Comunidade vai dar pra gente? Tá doido compadre, vamos pegar esse bolão e fazer nossa vez”!
Os equipamentos da Empresa EIT, chega em Quitaiús. Tratores imponentes, caçambas, escavadeiras, máquinas de terraplanagem, verdadeiras jamantas. As ruas se tornaram estreitas para abrigar as enormes geringonças. Os engenheiros, os técnicos da obra, os operários, inundavam as ruas e ocupavam diversas casas da Vila para dar início a grandiosa novidade.
Inicia-se a destruição, indenizam-se terras férteis dos vales do riacho do Rosário, as máquinas derrubam as mangueiras, os plantios de milho, de feijão, destroem as casas, para dar lugar a grande barragem. A questão seria defender os interesses do governo.
A construção da barragem revolucionou a Vila de Quitaiús, tornou-se a grande coqueluche do momento; chamava a atenção de muita gente. Surgem empregos temporários para um grande número de pessoas. Os comerciantes aumentam seus estoques de mercadorias para atender aos novos moradores. Proprietários de bares, de frigoríficos, se beneficiando com as vendas de seus produtos antes tão fraca. Instalam-se pequenas lanchonetes, a beira da construção, moradores do distrito armam barracas para venderem seus produtos. Com o aumento das vendas, até assaltantes apareceu para saquear as lojas do comércio.
O progresso no sertão causou sobressalto para os moradores. Despertou a atenção dos municípios vizinhos. A estrada que liga Quitaiús a Lavras transformou-se numa verdadeira pista, de tanto as máquinas e os automóveis dos engenheiros e técnicos transitarem. Passaram a cuidar da estrada, aplainavam com suas máquinas, molhavam noite e dia, para melhor transitar com seus transportes, bem como diminuir a poeira. Os moradores exclamavam: “Ah! Agora nós temos uma estrada de verdade, parece um tapete! Faz gosto vigiar para Lavras”!
O povo admirava a obra que, a cada dia crescia, os sítios, cedendo lugar a uma imensa barragem.
As mocinhas carentes enlouqueciam quando se deparavam com os homens desconhecidos. Tanto homem no lugarejo, coisa nunca vista! E os forasteiros, aproveitavam o ensejo com galanteios baratos conquistavam as inocentes, com promessas mentirosas, enganando as garotas com suas artimanhas e algumas menos prevenidas deixaram-se engravidar.
A construção prosseguia, o projeto arrojado para o pequeno lugarejo tomava proporção. Tratando-se de uma obra pública, não se tinha pressa. Os moradores não viam a hora do término da obra para participarem da inauguração. Queriam ver o imenso açude cheio de água. Assim prosseguiu por três anos consecutivos. A obra não tinha fim, o dia da inauguração não chegava. Quando no ano 2000, o açude começa a tomar água no primeiro inverno, os próprios moradores inauguram, festejaram com a pesca abundante de peixes. Coisa nunca vista, que fartura!

Quando se aproximou a eleição para governador, a obra concluída, Tasso Jereissati, num momento inusitado, comunica aos seus assessores e desembarca de um helicóptero no campo de futebol de Quitaiús no dia 03 de abril de 2002; ele fez o um ligeiro discurso de inauguração na praça da Matriz, recomendo aos jovens a preservação da história e do acervo arquitetônico, apontando para as fachadas das casas antigas que circundam a praça. Em seguida levantou vôo para Juazeiro do Norte.
Hoje, o saldo de toda essa transformação, são as vantagens e os prejuízos causados pela obra. O riacho do Rosário perdeu seu curso normal no período chuvoso, não acontecerá grandes enchente para banhar suas margens. No leito do rio as águas correrão somente, à medida que as comportas abrirem-se, determinada por um técnico. Contudo, a população tem peixe com facilidade, a irrigação para os plantios se tornou possível para alguns, em qualquer época do ano, pois, ainda não existe o incentivo do governo para tanto, a Vila foi beneficiada com o abastecimento d’água, também sua sede, Lavras, desponta uma área de lazer para os moradores, aproximou outros municípios, como Aurora, Granjeiro, a própria sede do distrito, onde aos finais de semanas reúne inúmeras pessoas para o banho na barragem. A agrovila é um outro fator preponderante, para os que afastaram-se de suas antigas moradas para ceder lugar à obra. Outros benefícios poderiam surgir de acordo com os interesses dos administradores da sede e do distrito.

 


Fortaleza - 28/ 11/2002

 

 
  Incêndio do barraco.

Ao amanhecer do dia, logo observei uma espessa camada de faíscas pretas derramadas por todo meu jardim, invadindo a casa. Fiquei a matutar sobre o que teria acontecido. Abri o portão, o barraco da praça havia desaparecido. Nada constatei. Por volta de 4:00 horas da madrugada, o barraco do Carlos fora incendiado de forma barbaramente estúpida por autoria não identificada. Foi despejada gasolina sem dor nem piedade sobre as peças de madeira e palha que formavam o barraco. O criminoso ateou fogo desumanamente. Carlos encontrava-se no barraco dormindo com sua esposa, e a cachorra. Logo que ouviu o estalido saltou fora com a família e ficou de longe observando tudo acontecer atônito sem nada entender. O fogo consumiu todas as tábuas, e seus pertences que seu ninho circundado ao redor da antiga árvore da praça que também foi crestada, bem como a carnaubeira.
Não foi possível determinar a causa do incêndio e, nem fazer o registro da ocorrência, a polícia técnica não pode ser acionada, uma vez que o barraco era algo irregular. Ele apenas nos adiantou que o motivo do crime não tem explicação. Supostamente, não teria partido de outro motivo senão rixa?
Carlos, homem jovem, embora morador de rua sofrido, aparentando mais ou menos trinta anos de idade. Chegou devagar à praça acompanhado de sua e uma cachorra há pouco mais de oito meses, foi encostando umas tábuas velhas, colchonete rasgado, entre outros trapos. Aos poucos foi montando seu barraco em frente aos antigos e conhecidos prostíbulos da São Pedro; no tronco da velha árvore, na descuidada praça das Rocas. O Gomes sempre prestava socorro, auxiliando-o com um pouco de comida, roupas e calçados usados. Vivia ele harmoniosamente com a vizinhança. Sem trabalho catava lixo, arranjava alguns biscates nos dias de feiras das Rocas.
Sem barraco, hoje Carlos vagueia pelas ruas com ares de mendigo despejado, sem amparo, sem direção, vítima da desigualdade social. Que mundo é esse que vivemos? Onde estão nossos representantes do poder público? Representantes da Igreja local? Divago com meu espírito imerso de compaixão. Analiso que minha omissão de cidadã também interfere nesse processo. Temos que nos dar as mãos, fazer algo mais consistente que possa minimizar a situação atual dos moradores de rua desse bairro que são muitos.


Natal, 04/11/2008

 

 
 

Naquela Noite


                 A vetusta Lavras, Princesa do Salgado com seu charme, posta no alto-jaguaribe, porta de entrada do Cariri. Fica a muitas léguas de sertão neste imenso Ceará adentro, onde tudo seria um sonho se não fossem as distâncias e as dificuldades do povo. Contudo, até esses empecilhos soluciona-se: porque as distâncias não importam a quem não quer sair de onde está; e as dificuldades, o sertanejo acostumou-se conviver com elas. Segundo Guimarães Rosa “o sertão está em toda parte”. Lavras é, pois um oásis cultural no sertão.
                   Ali, naquela cidade, naquela noite, naquele jantar, celebrou-se o mais inusitado dos acontecimentos histórico-cultural, o grande legado, tudo que Dimas Macedo sonhou e planejou juntamente com outros lavrenses. A noite estava encantadora, a lua postada num ângulo tão próximo, refletida nas águas do Salgado, aventurando-se enfeitiçar os poetas. A Câmara Municipal engalanada de luzes, cores e tenda de livros para receber os acadêmicos, autoridades políticos, estudantes, representantes de diversas escolas entre outros convidados.
                  Lavras, pois, nesse misto de antiguidade, cultura, beleza, e acirramento político, naquela noite, no seu apogeu foi agraciada com a relevante comenda, para seu engrandecimento, a Academia Lavrense de Letras. Momento ímpar, indescritível, um acontecimento sui generis, portanto o maior de todos os tempos. Um dos objetivos desse projeto: realçar a memória de seus filhos ilustre como, Almir Pinto, Afonso Banhos, Antônio Augusto, Cabral da Catingueira, Francisco Francílio Dourado, Francisco Bezerra Sampaio, Irmã Ferrer, Idelfonso Correia, Filgueiras Lima, João Climaco Bezerra, João Gonçalves, Joaryvar Macedo, Josafá de Lima, Joel de Lima, José Linhares, Padre José Joaquim Xavier Sobreira, Lobo Manso, Julieta Filgueiras, Gustavo Augusto, Gilberto Milfont, Gustavo Augusto Lima, Maria Oliveira Dias, Madre Bezerra, Manoel Gonçalves de Lemos, Moreira Campos, Prisco Bezerra, Tota Bezerra, Pery Augusto, Stela Sampaio, Sinhar D’ Amora, Vicente Augusto, Zito Lobo e José Joaquim Xavier Sobreira.
                  A equipe do Dimas Macedo foi bastante generosa, não deixou fora da Academia nenhum dos lavrenses que contribuíram e contribuem para seu desenvolvimento cultural; seja erudito ou popular envolvendo as diversas áreas do conhecimento.
                   E assim Dimas Macedo, homem de grande sensibilidade e espiritualidade instalou a Academia Lavrense de Letras para orgulho da nação Lavras da Mangabeira. Agora nas rochas do Boqueirão não somente escorrem águas do Salgado e sim o líquido transparente da intelectualidade lavrense.
                     Muito acertada foi a idéia do Dimas Macedo, pois, a repercussão já suscita o interesse do seu povo em querer compreender as funções dos acadêmicos e da própria Academia. Uma pergunta instigante e inteligente da adolescente Rayla Pires Bezerra Morais, durante o jantar.
“E agora tia, o que vocês irão fazer com essa Academia?”.

                    Cabe a cada um de nós darmos uma resposta condizente aos anseios da juventude lavrense com ações: profícua, pontual e contínua.

Natal, 16/12/2008

 

 

 
 

 TGV - O Trem – Bala

                   Numa excursão de vinte e quatro dias pela Europa visitando os santuários europeus, nosso plano junto à agência de viagem seria fazermos o percurso de quatro países por via rodoviária. Na volta de Israel, em Paris, o ônibus que estava nos conduzindo, fretado pela agência apresentou problemas, impossibilitando de prosseguirmos a peregrinação como estava programado. Ficamos na “cidade luz” por mais um dia. Quando deveríamos sair pela manhã de quinta-feira para Lourdes. Até nossa guia local providenciar bilhetes para irmos de TGV. Um comboio de alta velocidade; o popular trem-bala, que perfaz uma velocidade de 300 quilômetros por hora. Enquanto isso, ainda voltamos às compras e visitamos outros pontos turísticos não programados. Passamos o dia na rua enquanto nossas bagagens ficavam num guarda- malas do hotel, e ainda fomos rever a torre Eiffel.
                   Todos nós excursionistas éramos marinheiros de primeira viagem nessa empreitada. Nem mesmo o nosso guia espiritual havia viajado de TGV. Quanta expectativa! Não poderíamos deixar de ir a Lourdes, um dos principais roteiros de peregrinação. Lourdes recebe aproximadamente um milhão de visitantes anualmente, mais de 150 países.
                     Reunidos no hall do hotel em Paris, nossa guia explicou como deveríamos tomar o trem. Em primeira mão, fez um alarde assustando todos nós do perigo que poderíamos correr se não seguíssemos todas as suas instruções.
                     De volta da Terra Santa, e das compras em Paris, cada um do grupo portava uma bagagem excessiva para o tipo de transporte que iríamos utilizar.
                      A orientação da guia deixou-nos assustados, temerosos. Tomamos táxi até a estação do TGV Atlantique em Monteparnasse com saída para Lourdes. Uma companheira de viagem lamentava sentindo-se mal, um friozinho na barriga, só de imaginar a subida com sua enorme mala e outros três volumes.
                     Na ampla estação, inúmeros viandantes, estrangeiros inexperientes, avisados a conduzir as bagagens através de um carrinho que funcionava com uso de uma moeda. Cada um de nós procura seguir as pistas dadas por nossa guia local. Na prática não funcionava. Os carros travavam, atropelávamos uns aos outros, com medo de perder o trem. Segundo a nossa guia, depois de três minutos que as portas se abrissem, se nós todos não entrássemos, no trem, este partiria nos deixando para trás. Imaginem, cada um portando malas, sacolas e ainda por cima teríamos de retornarmos para colocar os carrinhos de volta no local onde pegamos para tomarmos o trem. O TGV deu sinal. A Guia avisa: dois minutos para subirem. Soou um alvoroço total, todos querendo entrar no trem ao mesmo tempo; cada um portando de quatro a cinco volumes. Esquecidos da ética engalfinhavam-se uns nos outros; uma verdadeira luta corporal. Empurrões, gritos de socorro - completo vexame! Uma integrante do grupo desmaiou, era uma distinta e elegante senhora cearense de Senador Pompeu; outra se machucou, caindo por cima dos passageiros que já estavam no trem, um verdadeiro horror. Entramos no compartimento errado, no de primeira classe. Nossos bilhetes seriam para o de segunda. É impossível descrever o ar de espanto que demonstraram os elegantes passageiros com nossa invasão desconcertada no compartimento de primeira classe do comboio. Ainda ficamos às voltas para arranjar espaço para todos e às tantas bagagens. Após acomodarmos as bagagens, aí estávamos nós, prontos para a descoberta do maior centro de peregrinação mundial, Lourdes. O trem perfazia esse percurso em cinco horas e meia, numa velocidade de 300 quilômetros por hora. Enfim, todos sentados. Por essa altura o cansaço era enorme. Eu e uma outra companheira de viagem exaustas do susto e do atropelo dirigimo-nos para o luxuoso bar do TGV a procura de algo que nos reanimassem. Tomamos um delicioso cappuccine acompanhado do verdadeiro croassã francês. Saímos revigoradas para o vagão de primeira classe.
                    De volta no compartimento, da janela observava a paisagem, não era fácil decifrar o cenário pela alta velocidade do trem, um sonho indecifrável, uma realidade concrescível. Nossa guia cearense conversava em inglês com um ocupante estrangeiro informando-se de detalhes sobre o desembarque.
                   Completada duas horas e meia chegamos a Lourdes, que fica situada na região montanhosa dos Pirineus. Dirigimo-nos ao hotel, para um merecido descanso. O primeiro objetivo seria visitar o Santuário e a gruta onde a “Imaculada Conceição” apareceu a Bernadete. Durante o percurso observamos a infinidade de hotéis e lojas de suvenires que se concentram ao redor do Santuário. Visitamos as piscinas de cura, a Basílica, e bebemos água da nascente, e colhemos em reservatórios antecipadamente adquiridos nas lojas de suvenir para presentearmos nossos familiares. Acendemos velas na gruta, visitamos a capela onde se encontra o corpo de Santa Bernadete que permanece incorruptível. Fizemos todos estes roteiros pela manhã. À tarde, fora do circuito de peregrinação, fomos eu e uma companheira, ao museu, e depois fomos subir no Funiculaire do Pic du Jer, um bonde elétrico construído em 1900, que sobe os Pirineus, uma montanha com altura de 1000 metros. Uma deliciosa aventura! À noitinha participamos da procissão iluminada, como uma moldura que contorna um castelo. O rosário recitado em diversos idiomas, ao som de cânticos de glória à Imaculada Conceição. À frente da procissão observamos um grande número de macas e cadeiras de rodas transportando pessoas doentes pedindo cura para seus males, todos acompanhados de enfermeiros. Foi um dos momentos mais emocionante da peregrinação. Encerrado nosso roteiro de visitas voltamos ao hotel para preparamos as malas, e, no dia seguinte, prosseguirmos o roteiro para Madri, desta vez, por via rodoviária.
                    Dos santuários visitados, Lourdes foi o que mais me impressionou, depois de Belém, local da natividade de Jesus, que me pareceu muito original em alguns aspectos.

Fortaleza, 22/12/1999

 

 
 

Vitrais da minha infância

 

Iluminei os porões da memória evidenciaram-se as mais perenes lembranças e os infinitos desvãos dos meandros da sofrida existência.

 

Rosa Firmo

 

    Descortinando os porões da memória afetiva, vadeando rios, atravessando veredas, ao longe alcancei o alpendre ao balançar das redes de varandas, os gibões de couro, as selas de montaria, os arreios e outros apetrechos. Marejei, ao escutar a algazarra do assum-preto, do sanhaçu, do bem-te-vi, o vôo apressado do nambu, de sobressalto reparei nos baús revestidos de couros, desenhados monogramas com botões de metal dourado, herança dos artesões advindos da Ibéria.

   Dos vitrais da memória olhei os balaústres do meu alpendre, inertes, firmes; o vento soprava quente trazendo a poeira, o cheiro do fartum do curral das vacas, do chiqueiro dos bezerros apartados.  Ali pertinho do alpendre a cerca de faxina, as pontas branquinhas decoradas com cascas de ovos, separando a casa, nela se enroscava o pé de melão São Caetano. Pertinho dali, o pé de bugari, o pé de lírio exalando cheiro refrescava os sonhos inocentes.

  Nesse recanto escondido do sertão morava um povo simples e ordeiro que conduzia rebanho de gado, de ovelhas, de cabras de porcos. Povo que trabalhava no roçado lavrava a terra, colhia arroz, milho, feijão, algodão, trabalhava bem o couro de boi, cru e curtido.

       O gado era considerado um elemento sagrado do povo do sertão. Havia um dia quase solenemente, numa manhã, ou, à tardinha, o vaqueiro junto ao patrão passava a peia nos garotes recém-comprados e nos nascidos, para selá-los com suas marcas de ferro, tais os rudes brasões de Virgílio Maia, a arte armorial de Ariano Suassuna, a heráldica sertaneja de Osvaldo Lamartine.

    O proprietário destemido com o ferro quente em ponto de brasa protegido de um cabo bem comprido de madeira e sabugo de milho que ao ferrar chamuscava o couro do animal que exalava o cheiro de queimado, parecendo churrasco.  Os garrotes esperneavam aos esturros e berros que misturavam-se a minha dor.

  Dos vitrais da minha infância lembro-me que se celebrava a festa da matança do boi, do carneiro gordo para comer o sarapatel. Ah! A matança do porco, degolado a facadas e dependurado no caibro para escorrer o sangue usado no preparo do chouriço. A carne, o toucinho que, solidariamente repartia-se entre a parentada e a vizinhança, gesto que se repetia quando um outro parente ou vizinho realizava a matança de um desses animais.

    As mulheres. Ah, as mulheres, artesãs anônimas do crochê, do bordado à mão, do fuxico, do fuso de fiar algodão, da renda de almofada com fios de algodão a partir de bilros e espinhos de mandacaru; arte advinda do ecletismo português, negro, índio, cristãos novos, esse rico caldeirão de brasilidade. Essas artes autenticamente femininas de mulheres bravias  que se ornamentavam para amenizar as durezas da vida sertaneja. As mulheres do sertão se esbaldavam no trabalho doméstico, um trabalho muito áspero para nossos dias. Acordar com o galo que mais parecia uma prece no seu cantar nas madrugadas frias. A ordem seria espichar o corpo, arregaçar as manga para a labuta de acender o fogão a lenha, usando querosene nos gravetos apanhados de véspera nas caatingas. Preparar o café na chaleira de ferro com rapadura; coar o leite no guardanapo branco bem lavado com uma marca vermelha em ponto corrente, em seguida preparar o beiju, com manteiga da terra e, ao mesmo tempo, já colocava a panela de barro na trempe com o feijão de corda e toucinho; pisava o milho para o cuscuz; fazer o queijo de coalho, espremido manualmente, noutra panela preparava-se o queijo de manteiga, comida fidalga, que se comia na hora, em fios quentinhos. Num cantinho do terreiro, castrar os frangos à faca, uma faca de cozinha amolada, sem anestésico, a sangue frio, crueza impiedosa, depois fazia-se a sutura com linha de costurar  e  polvilhava-se com borralha de lenha do fogão. Só as mulheres valentes do sertão não temiam a estes atos tiranos. Quanta coragem desprendida! A luta árdua e contínua se estendia na noite adentro, nem os grandes restaurantes de hoje assemelha-se à tamanha labuta sertaneja.

    Do vitral de minha infância recordo o “engenho”, a moagem era uma festa, degustava-se o mel de engenho com farinha, o melado no tacho antes de dar o ponto de rapadura, com um pedaço de cana previamente raspado, molhar naquela mistura e pegar com as nossas mãos, puxa, puxa-puxa, que delícia! A garapa, de cana tomava-se com limão para não dar raposa, uma gastura comum aos que abusavam sem o uso do limão.

      A meninada desprendida no seu gáudio retirava resina dos pés de angicos, comiam enchendo a boca sujando os dentes e assava castanha de caju na lata de querosene, cortada na horizontal envolvendo todo o terreiro em fumaça que se evolava pelo ar junto com os sonhos do porvir. Essa castanha seria pisada no pilão com rapadura para ser saboreada sem que se soubesse o valor nutricional que essa mistura continha.

  Pelos caminhos da roça, lá estava a meninada a correr descalça, sem medo de estrepar-se nos espinhos, pisar nos estercos das vacas, nem tão pouco nas cobras com que de repente se deparavam.  Era uma constante brincadeira até não ser chamada para o trabalho- hoje considerado trabalho infantil , na época não considerado “exploração - nem de longe se sonhava com a  existência de um estatuto da criança e do adolescente. Era tudo muito puro e duro, sem regalias e sem réplicas.

 

   Os vergões das feridas purificam do mal, e os açoites, o mais íntimo do corpo”. (Provérbios 20-30). “São purificações das marcas, como também pancadas que penetram até o mais íntimo da mente”.

 

 

  Fortaleza, 22/12/1999

 

 
 

UM VAGA-LUME NA ESCURIDÃO

            Minha existência foi pontilhada de transição entre luz e penumbra, muitas vezes fugindo do isolamento. Na infância admirava pessoas corajosas, preparadas e intelectuais. Elas tinham uma luminosidade para mim. As palavras diferentes soavam alto, tinham uma conotação especial. Isso me despertava uma eloqüência na alma, uma emoção forte. Na minha adolescência, foram inúmeras cortinas nubladas, escuras até. Pouco a pouco acenando uma pequena clareira, o oásis em meio às asperezas do sertão.
            Na idade adulta nunca consegui apagar a chama de minha mente e do meu espírito inquieto de força transbordante e esplendorosa. Não de uma luz fraca de vaga-lume, mas de diversos vaga-lumes, luzeiros no meu caminho. Foi o meu limiar na educação – substituta de uma colega no antigo Mobral (Movimento Brasileiro de alfabetização de Adultos), na periferia de Fortaleza.
            Lembro-me como se fosse hoje, sala pequena, sem reboco, tijolos mal caiados, coisa esquecida, meio abandonada. Ali, no bairro alto da Balança.
            Fim de tarde quente de setembro, ano de 1972. Eu ainda mocinha, de densos cabelos pretos, curtinhos. Tímida ao extremo. Temerosa, excitada, sonhadora. Os alunos, jovens, outros mais velhos que eu, entre esses alunos constava na turma a minha irmã Seve, também mais velha que eu.
            Homens, mulheres, jovens, empregadas domésticas, mãos calosas, unhas maltratadas da labuta diária, mal vestida. Semi-analfabetos todos eles! De pai e mãe e de destino. Poucos sedentos de aprendizagem, traçando suas frases curtas desordenadas, suas leituras gaguejadas. Todos me olhando, tímidos, curiosos, indagativos, rostos bronzeados do sol de praia dos finais de semana, sob iluminação precária da sala humilde.
            De repente a noite cai, escurece, os bancos de tábuas são postos para fora da sala. Ao cair da noite, aproveitando a luz do poste, a aula continua ao ar livre no pátio da igreja com dinâmicas e debates sobre o Sistema Educacional do Brasil, arriscando uma improvisação. Decifrando os traços daqueles rostos voltados para mim. Deus! Como foi interessante aquele momento! Como foi absoluto, inesquecível!
            Aquela aula improvisada foi como uma luz, um feixe de vaga-lume na escuridão despertando minha carreira de educadora que começou naquele dia, ali, ao relento, sem muros, pura liberdade, que eu tanto sonhara, porém bancos rústicos repletos de pessoas humanas com expectativas, sonhando com o saber. Naquela noite, naquele bairro. Naquele instante a magia da educação penetrou no meu ser.
            Hoje, mais de três décadas são passadas. Mas foi naquele momento de luz que despertou a minha vocação de educadora. Fui professora de adultos, de crianças, secretária, coordenadora, vice-diretora, e hoje orientadora educacional, a mais bela e mais essencial das especializações no campo da educação.
            E novamente os vaga-lumes! Luzes e sombras permeiam minha caminhada, entrelaçada, intercalada numa constante simbiose mútua, procurando produzir o essencial para não esmorecer, para não parar nem esmaecer no tempo. Coragem e espírito de luz sempre irão me acompanhar.

Fortaleza, 01 de julho de 2002.
 


LAGOINHA

            Na chegada ao restaurante do hotel, depois de acomodar as bagagens no quarto, falei para o Gomes, para não se aborrecer comigo, pois iria conversar com o garçom, com os nativos daquele lugar, queria sair bem informada. Precisava conhecer a história desta natureza exuberante, bela e deslumbrante. Queria saber como se deu o povoamento da região de Paraipaba.
            Tirei o meu chapéu. Gomes pediu uma cerveja, o sol estava escaldante, nenhuma aragem, era quase meio-dia; final de dezembro, o hotel estava praticamente vazio. Os nativos solícitos logo se aproximavam e ofereciam seus serviços: (verbalizavam, cuidamos do carro). “Olhem senhores, temos os passeios de jardineira, de jangada, de triciclo, os buggys estão saindo logo mais, se quiserem podemos levar vocês à Lagoa das Almécegas, à casa de farinha etc”. Dispensamo-los, com as desculpas de fazermos no dia seguinte. Passamos o dia fazendo o reconhecimento da área. Repousamos e nos recolhemos cedo ao quarto do hotel, subindo devagarzinho a infinidade de degraus.
            O dia amanheceu quente. Da varanda do quarto, ali inerte, olhos pregados na imensidão do mar verde-azulado. Descemos para o restaurante. Findo o café, um senhor aparentando seus 80 anos, sentado numa cadeira, ali tomava Sol, dava ordens aos empregados e cumprimentava os hóspedes que por ali passavam. 9:00 horas, subimos ao quarto para escovar os dentes. O silêncio envolvia o hall do hotel. O sol batendo na varanda. Nem um pouco de brisa morna soprava. O mar estava calmo; os pássaros pousavam na soleira da varanda do restaurante, sequer, assustava o velho sonolento. O empregado da prefeitura empunhava o chicote, tangendo o boi preso na almanjarra, puxando a carroça, transportando o lixo da praia. 10:00 horas, de sexta-feira. Começava a chegar as vans lotadas de turistas do sul do país. Uns portando filmadoras, outros com câmeras fotográficas a tiracolo. As senhoras espalhando os protetores de pele, colocando os bonés, outras, grandes chapéus, as crianças pulando de alegria; os encarregados das jardineiras corriam para oferecer os passeios já programados do pacote turístico. As jardineiras saíam lotadas de gente e de sonhos. Quanta coisa o cearense se orgulha em oferecer! 13:00 horas, todos de volta, todos esperando à mesa, experimentar as iguarias típicas do Ceará: peixe, pirão, camarão, lagosta, etc. tudo era muito atraente aos olhos do povo do sul. Crianças nativas, da Lagoinha debruçavam-se no para-peito do restaurante com as bandejas de cocadas pretas e brancas. Gritavam, “ajudem minha mãe, comprando minha cocada, apenas por R$ 1,00”.
            Logo depois, os turistas tomavam as vans, rumo à Fortaleza. Calava-se o rumor das jardineiras, dos triciclos, das crianças.
              Olhava-se para a piscina, a água azul parada... Todos os hóspedes recolhiam-se para a sesta. O Sol ardente brilhava sobre o morro dourado, cartão postal da Lagoinha. As palmeiras, as buganvílias nem se mexiam. Duas horas depois reapareciam os hóspedes, o velhinho retomava sua cadeira; as crianças caíam na piscina. Na varanda do quarto, uns liam livros, revistas, outros ainda dormiam nas redes de varandas em frete ao mar. Os empregados do hotel, uns jogavam sinuca, outros o jogo de baralhos com o velhinho no saguão da pousada. Enquanto a maré enchia, trazia os encantos e a magia nas ondas que quebravam rumorosas e brilhantes, enquanto o sol batia sobre a crista das ondas que subiam alto. Eu ficava em up time. O imponente morro de areia dourada esta ficava mais escura com a luz do Sol. A tarde começava a cair. Alguns hóspedes se exercitavam em longas caminhadas pelas areias úmidas da praia. Uma vastidão. Um silêncio. Só se escutava a música do mar, um convite à meditação. Uma jovem mulher tomava banho brincando com as ondas que quebravam forte fazendo-a rolar despreocupada pela areia.
              Ao retornar para o quarto do hotel, subindo 108 degraus. Fomos pra varanda admirar o clarão vermelho do pôr-do-sol que pouco a pouco esmaecia. O céu escurecia lentamente. Aos poucos surgiam as estrelas, era quase noite. O Gomes, autêntico visionário, a contar suas histórias de viagens pelo exterior. A brisa da praia não apareceu, nem mesmo a toalha estendida na varanda se movia. A noite se apossa do hotel, o mar ficava mais escuro, ninguém conseguia enxergar as jangadas estacionadas ao lado. Os hóspedes recolhiam-se aos seus quartos, ouviam-se as conversas, as músicas espremidas que saíam de pequenos aparelhos de som, nos quartos dos vizinhos. Alguns fugindo do calor armavam redes e dormiam nas varandas. Fechava-se o hotel; um silêncio budista invadia o ambiente. Só o mar murmurava. Música harmoniosa. Calmaria, bom descanso. O domingo chegou, o passeio acabou, na volta para casa, só alegria, contentamento de ter desfrutado bons momentos. Muita energia adquirida para enfrentar o dia-a-dia...

Dezembro, 2001.


A VILA SÃO FRANCISCO

              Nuvens de poeira, sol escaldante, homens e mulheres animadas tagarelando pela rua principal da vila à espera da missa das dez horas do domingo. O sino repica abafando o barburim da multidão. As barracas da feira estão abarrotadas de produtos oriundos de Juazeiro e de Crato; rosários de coco, cachimbos e chupetas de açúcar, pentes de chifres, bonecas de louça, fitas de tafetá, mantilhas de tule, entre outras variedades. E ainda as variadas panelas e alguidar de barro das artesãs do sítio Varas. A vila se agita. O sino dá o último aviso, o povo ordeiro dirige-se à capela, nuvens de incenso no altar, mulheres de cabelos brilhando, solto nos ombros, bem tratados com banha de porco. Meias finas envolvem as pernas cabeludas das mulheres do campo. Mantilhas sobre as cabeças, peça obrigatória para as mulheres assistirem o ato litúrgico. As senhoras da irmandade do Apostolado da Oração tomam seus acentos especiais, cadeiras com espaldar de palhinhas, inicias gravadas na testeira. O padre Alzir, de costas para o público, inicia a celebração rezando em latim. As pessoas não compreendendo o idioma, cochicham sem preconceitos, despreocupadas. As “Filhas de Maria” e as mulheres mais fervorosas debulham o terço enquanto o padre faz exortações na homilia.
              Após a missa, gritos de crianças na pia batismal, assustadas com a pancada da água benta despejada nas cabeças com uma caneca aparada numa bacia de ágata. As crianças esgoelam-se ao serem batizadas. Envolvidas nos longos cueiros de algodãozinho e camisas de tricolina bordadas; mijando e suando com o calor escaldante, enchendo-se de brotoejas. E nessa agitação, Marieta mangando das marmotas do povo, se divertindo das bolhas nos pés da comadre Zefa, estropiada dos tropicões nos buracos, com as alpercatas de sola ressequidas que ficara guardada, empoeirada, meses... aguardando um dia de missa dominical na vila.
A feira se anima, as bodegas lotadas de homens riscando os tijolos com as rosetas das esporas; comprando um litro de sal em pedras, café de Baturité em grãos cru, farinha de mandioca, tomando uma bicada de pinga e fumando cigarros de fumo [de rolo]. Mundim Santana, na esquina, tratando dos negócios de gado com seu Tonico. Os animais selados cochilam e babam, amarrados nos balaústres das casas aguardando seu dono para a volta aos sítios.
              Contritos. Ações cumpridas, retornam às suas moradas com os alforjes e os bolsos das caronas abarrotados de mercadorias, de pães quentinhos da padaria de Virgílio Clemente. E a alma leve pelo cumprimento às obrigações cristãs.

Fortaleza, 14 de novembro de 2003.


Textos Escolares

Lições de 1982


SERVIÇO DE ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL

              Chegamos ao final de 1982, podemos sentar na cumeeira, como Jesus nos recomendou, para gritar do alto o que ele nos falou ao ouvido, pois, a coruja tem outro modo de ficar sobre o telhado.
Avaliar um ano é tarefa difícil. Não há balança para pesar ou mensurar nossas ações, opiniões e nossos valores, pois são às vezes muito subjetivos. Em todo caso, não se pode deixar passar um ano sem tirar conclusões valiosas.
              Se não tomarmos consciência do que aconteceu, como festejar o final de ano? É incrível como muitos conseguem fechar os canais de comunicação. Ao assumirmos uma ação consciente sem a informação necessária faltará a formação.
              Muitos fatos aconteceram independentes de nós, este ano, nem é necessário estarmos a par. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos mais carentes, são também as alegrias, as esperanças, as tristezas e as angústias dos que militam no caminho de Deus.
Não basta ficar sobre o telhado de 1982, como corujão. Alguns fatos que aconteceram neste ano já até os esquecemos. Alguns ficarão gravados. Tomara que não os esqueçamos de tudo.
Entre muitos fatos positivos e negativos, valem ressaltar alguns como, o desastre aéreo de Pacatuba, a guerra das Malvinas, a Copa do Mundo, as nossas eleições livres e diretas, depois de quase duas décadas, os movimentos revolucionários e de repercussão na Polônia, Israel, a morte de uma senhora que tentava o bebê de proveta, nosso trabalho de formiguinha como educadoras e educadores. Outros fatos aconteceram, é impossível enumerá-los.
              Tudo isso despertou em nós, certamente, melhor senso crítico, ou ao menos um certo bom senso, pois reconhecemos que estamos longe de termos um senso histórico. Somos ainda muito jovens e é, muito difícil criticar os acontecimentos jogados por uma civilização pluralista, com um demasiado prazer de simplesmente produzir coisas úteis para o lucro.

Não desanimemos!
“Viver é um dom de Deus”
“Vivemos vivendo e aprendendo”


A VIOLÊNCIA NA ESCOLA

               Através de uma pesquisa realizada com os jovens em uma escola X, cuja pergunta era a seguinte: “Quais suas maiores preocupações em relação ao futuro”?
As principais respostas foram pela ordem: desemprego, violência, e as drogas. Aliás, sob certos aspectos, esses itens se inter-relacionam, pois como se diz: a ociosidade é a mãe de todos os vícios” e a violência está muito ligada ao uso de drogas.
              É necessário salientar que a violência na escola é resultante das expectativas frustradas dos jovens, isso sem falar em outros determinantes como: ausência de limites pelos pais ou responsáveis (educação muito permissiva); baixa auto-estima, estímulos dos meios de comunicação; ausência de afeto, entre outros.
              Observa-se que, a violência, vem ocorrendo nas escolas com maior freqüência ultimamente e são influenciadas por fatores externos já citados acima, explicitamente claros para nós educadores alertamos; deixando de lado velhos paradigmas e instalarmos outros novos que possam favorecer e reverter este quadro. Não é uma tarefa fácil, a palavra chave é a CRIATIVIDADE, que deve está presente em todos os momentos como, por exemplo, utilizando-se dos parâmetros curriculares nacionais, especificamente, trabalhar com os temas transversais como; a Ética, Orientação Sexual, complementando especialmente com arte cultura e esporte, encetando com muita ênfase o compromisso e o amor. Adotemos esta prática já!
               Sabemos que se faz necessário um movimento bem mais amplo, pois as drogas pelos seus próprios efeitos podem levar à violência, principalmente em personalidades predispostas. Não se pode desistir. O papel do educador, sua missão é muito importante, a ordem é não desanimar, “desistir nunca”.
Nos atendimentos individuais, nas vivências realizadas ao longo do processo escolar, num trabalho sistemático registro depoimentos das crianças e dos jovens.

Depoimento dos alunos:


Brigo, chuto meu colega para descontar o que ele fez comigo. Meu pai faz assim com minha mãe. (M. S. F. – aluno de 9 anos)

Tenho vontade que a minha fosse assim como à senhora, não falasse grosseiro comigo, me escutasse. (B. S. G. – aluno de 8 anos)

Queria que a minha escola fosse mais alegre, tivesse mais festas. Curso de dança, de música. (M. C. S. – aluna de 13 anos)

Na nossa escola, Creusa do Carmo Rocha, onde realizo atividades psicopedagógicas, não consideramos o nível de violência como as demais escolas da nossa capital; ainda há uma certa harmonia, um clima de camaradagem entre os alunos e o relacionamento dos mesmos com os que fazem a escola é considerado bom, apesar de sempre existir nos recreios brincadeiras pesadas, bem como denúncias de uso de drogas como inalantes nos banheiros nada assustador. Portanto nos consideramos da paz.

Fortaleza – Outubro de 1999


Textos Bucólicos

A CASA DA TAPERA


            Para os canais de percepção de menina interiorana sem a consciência dos confins, o mundo parecia pequeno, era apenas o que se estendia ao redor, o campo visível em volta à pequena casa grande da Tapera, era tudo que conhecia, sem lobrigar os limites.
              Tudo era palpável, atemporal, visão limitada de menina do campo não permitia enxergar os largos horizontes, não percebia os problemas sociais e econômicos que pontuavam o Nordeste com forte veemência, fins do governo Vargas, 1954. O estado de abandono em que se encontrava o sertão do Ceará naquela época era deplorável.
              Meninice mágica, no verdor da infância ingênua, minha alma era pura em meio às asperezas do sertão. Um rosto sem expressividade denunciava os maus-tratos da seca. Saboreava sonhos pequenos, e mais tarde almejava os grandes.
              A pequena casa grande da Tapera ficava escondida num alto por traz da Arapiraca. No alpendre a sombra se derramava. Lavado pelo vento que tangia as redes estendidas enfiadas nos caibros nos dias de calor sufocante com o forte mormaço procurava-se aliviar com um banho no riacho.
               Era uma casa dinâmica, alegre, cheia de gente, de animais ao seu redor, gente que passava, gente que visitava, gente que negociava, gente que ficava.
               Manhã de sol, descer para os baixios para sentir o ar puro, colher as frutas maduras no pé, escutar o aboio do vaqueiro, tomar banho no poço da pedra.
               Hoje viajando no tempo das minhas lembranças telúricas, revejo com os olhos do coração, o riacho do Rosário na época da cheia, às vezes enchendo devagar..., outras vezes, as águas chegavam arrebatadora, bordando as várzeas com suas águas barrentas. O cheiro do mato, do arroz, do milho abonecando, exalando aroma agradável, enchendo as almas sertanejas de alegria. Adiante os algodoais florescendo a esperança viva do sertanejo. O tempo se esvai ao vento.
               Doce lembrança do mês de junho, o rio secando, a várzea repleta do canavial esperando o dia do corte. No oitão da casa as ovelhas balindo; o tropel dos cavalos anunciava a chegada dos vaqueiros vindo das veredas da manga do gado, espantando as galinhas no terreiro. O leve ardor da terra misturava-se ao hálito dos bogaris na faxina do terreiro.
Na cozinha as pamonhas quentinhas na palha do milho, amarradas com barbantes. O tacho grande de doce de leite, o bule de ágata cheio de café à beira do fogo para não esfriar. A nata exalando um cheirinho gostoso, derretendo-se em manteiga no fogo. A bandeja grande redonda repleta de xícaras com leite mungido da vaquinha cordão de ouro. Todos em volta ao fogão. Guilhermina bordava um sorriso no rosto.
               Devagar caminho para um passado longínquo procurando sentir o aroma da infância que ficou perdida no silêncio do mundo deserto e na sombra da noite de céu estrelado bailando ao vento. No silêncio fico a flanar aguardando o fulgor do relâmpago e o estampido do trovão para me amedrontar outra vez. Apalpo a terra úmida que sobrou do orvalho do mês de junho e com doçura quebro o graveto ressequido do tempo no espinho da distância e toco a vida com muita expectativa, taciturna navego no intervalo da dor.
               Um ar de satisfação transpõe meu pensamento por trás da cortina do presente, e arrisco um olhar de saudade na vigília do tempo. Ah! O que importa é minha alma translúcida apaziguando-se nesse prosaico rosicler do alvorecer resvalando na correnteza da vida.

Natal – junho de 2006.


VIAGEM DE TREM

              O dia amanheceu nublado. A chuva não veio, no entanto, o dono da pensão bateu à minha porta. Exclamou: O trem logo mais partirá, são cinco horas! Levantei-me atônita, dormira mal. Rompi o casulo do cansaço, preparei minha bagagem. Tomei um café amargo e forte, e saí ladeando a calçada alta da rua do trilho, o céu ainda pardacento. Tentando acompanhar meu irmão Vicente que andava a passos largos, bem à frente. Na estação, no ponto final da plataforma avistamos Arioston e Plínio que caminhavam ao nosso encontro. Companheiros de inúmeras viagens de Lavras para Cedro.
              O trem era aquela coisa inusitada para mim, um transporte desconhecido em minha infância. Encantava-me com seu formato quilométrico, desfilando majestoso, com aquelas rodas de ferro sobre os trilhos bem estreitos. O som rouco e melancólico do seu apito instigava-me a imaginação, enquanto hoje, me desperta nostalgia e certo lirismo em conseqüência aos casos românticos e inusitados que me ocorreram no passado.
               O ferroviário puxa a corda do sino, acena para o maquinista. O trem deu partida. No vagão acomodamos nossos pertences. Saímos de Lavras, ao som do sacolejo do trem que resfolegava o vapor da máquina. O cheiro forte de ferro impregnava o ar. Nas poltronas, passageiros roncavam. Em menos de uma hora chegávamos a Cedro.
Ainda hoje sou capaz de reproduzir em minha mente os sons do atrito das rodas de ferro nos trilhos em busca de sonhos e transportando sonhos como o meu. O som rouco do seu apito me causava nostalgia. Por anos a fios, morando em Fortaleza ao ver a velha locomotiva era motivo para despertar em mim grande saudade e um choro incontido.
Manhã fugaz, regrada de esperanças e sonhos. Sonhos de conquistar um espaço inimaginável no futuro.
              Despedimos dos colegas, Arioston e Plínio na certeza de logo mais à tarde nos encontrarmos no colégio São João Batista. Na Rua da Capela, Rosinha de Pedrinho, em sua casa estava a me esperar com seu sorriso cativante. Vicente seguia em frente para casa de Toinha. Rosinha fazia toda sorte de perguntas, queria saber de todos da família. Servia o café com sua deliciosa tapioca e queijo, cuscuz de milho zarolho, pão de arroz com gergelim e toda aquela variedade de guloseima que mãe mandara da Tapera, época de muita fartura. Conversando alegremente enquanto Rosinha preparava o almoço, fazia uma rápida visita a irmã Socorro, a Tia Santana que moravam na mesma rua.
               Voltando à casa de Rosinha, me acomodo na sala preparando meus livros; contava pouco para o toque de meio dia na usina Natanael Cortês, um convite para dirigir-me ao Colégio São João Batista, encontrar-me com a turma; no percurso já alcançava Sonia Costa, não éramos apenas colega, muito mais, uma amiga de verdade. Quantas trilhas a percorrer. Quantos caminhos e sonhos de uma vida ceifada.

Natal, 12 de setembro de 2006.

Reflexão


SEMEAR O BEM - O CAMINHO PARA A FELICIDADE

               Conta uma fábula, que um pensamento rondava forte a Terra e fazia muito barulho na floresta. Uma borboleta amarela maravilhada voava contente, de repente, espeta-se num espinho. Desolada, a ermo, eis que aparece um menino mágico, aproxima-se e cuidadosamente solta a borboleta, ela recomeça a alçar altos vôos. Num destes vôos rasantes ela cai sobre as águas poluídas de um rio onde um peixinho está tentando salvar-se da poluição. “Comadre borboleta, disse ele, tenha a santa paciência, estou com muita fome, neste rio só existe poluição, deixa eu te comer”! A borboleta zangada, assustada, de asas ensopadas não podendo voar, tentou fugir do peixe e não consegui.
               O pensamento sussurrou no ouvido da borboleta “amiga, sacuda as asas e tente voar”, ela não conseguiu, mas não desanimou. A Terra falou mais alto, “vou pedir meu amigo vento para soprar suas asas e você irá voar”. Nada aconteceu. Aparece o menino mágico e determina, sacuda as asas! E rapidamente ela saiu a voar.
              Transferindo para nossa realidade, ser paciente, perspicaz e inteligente é posição que devemos assumir como seres humanos que somos nessa terra. Sejamos como a borboleta amarela!

Fortaleza, julho de 2005.

 

 
 

 

 
 

 DISCURSOS


DISCURSO DE LANÇAMENTO

“NOBREZA DE UMA MULHER SERTANEJA”

Senhoras e Senhores,

              Tenho a honra de saudar a todos neste momento com muita alegria e prazer. Meus cumprimentos aos meus familiares, minhas amigas e meus amigos, a nova geração de Guilhermina aqui presente.
Quero deixar explícita a minha satisfação, minha felicidade por alcançar esta grande conquista de publicar este trabalho, que considero algo ímpar em minha trajetória.
              É bem verdade que, só agora depois de dezesseis anos do falecimento de minha mãe é que consegui reunir condições para elaborar este instrumento cuja idéia surgiu e teve início com ela, ainda em vida. Posteriormente, fiz alguns levantamentos, colhi alguns depoimentos e numa reflexão ponderada, um estudo minucioso e despretensioso, é que pude concretizar este sonho. Assim nasceu esse estudo que traz a missão de registrar, de testemunhar uma idéia, uma convicção. Na certeza de que estou contribuindo para legar aos pósteros, dados importantes para quem, no futuro, pretenda escrever uma genealogia. Consciente desta experiência desafiadora de escrever esse instrumento e, mais ainda, quando tomei a decisão de tornar público meus sentimentos e a vida de minha mãe.
             Inicialmente, a intenção seria apenas, documentar seus ditos populares, pois, ela era uma sumidade nesse assunto, bem como documentar sobre suas meizinhas de ervas medicinais e as receitas dos seus tradicionais doces. A questão foi se aprofundando, tomando proporções, o desejo de escrever foi se alargando. Resultou nesta simples história das “memórias de Guilhermina”.
             Evocando Lígia Fagundes Teles, quando diz: “Nós somos a matéria de nosso passado. É tão bom dividi-los com o outro, que não nos conhece tanto... Vem, amado leitor, e a ponte que eu tenho para estender até ele é a minha palavra”. E no dizer de Batista de Lima, “A língua é o palco de todos os prazeres da linguagem. É nela onde se abastece o discurso, é a língua que faz a intermediação”. A intermediação de nos unir neste evento.
              Escrever este trabalho, foi muito prazeroso para mim; uma verdadeira catarse, muito mais que uma veleidade literária. Lidar com os sentimentos, buscar lembranças adormecidas no âmago do nosso ser, é tarefa agradável e sublime; é para mim uma forma de sublimar uma indignação. Auxiliou-me ainda para atenuar os traumas do meu expatriamento das diversas formas.
            Recordando algumas colocações de minha mãe como: “menina medonha, deixa de malinação, de futrica com livros, vem pra dentro cuidar dos afazeres de casa”! “Já estou cansada de falar, está me dando um farnizim no juízo. Vocês sabem como é teu pai! Ainda recordando os momentos de descanso à noitinha no alpendre da casa da Tapera, conversando potoca, ela soltava a inspiração, um dedo de prosa, fazendo loas e versos, tais como estes:

  “Subi na bananeira
Segurei no mangará,
Comi banana madura
Até a gata miar”.

              E não esquecendo seus famosos ditos populares:


“Quem a Deus clama sempre alcança”. “Quem não pode com o pote não pega na rodilha”. “O exemplo fala mais alto que as palavras”. “Moça direita não dar cabimento pra qualquer pé rapado”. “Quem tem os olhos fundos, começa a chorar cedo”.
Dediquei este trabalho as minhas primas e tias e ainda aos que ainda muito jovens morreram negligenciados em conseqüências das secas no nosso Ceará, entre esses, a tia Antonia e tio Francisco.


             Estou tornando pública a vida de Guilhermina com o título de “Nobreza de Uma Mulher Sertaneja,” tendo em vista que através de nossa convivência e dos depoimentos que colhi, observei que ela era nobre nos sentimentos e sertaneja pura, porque nasceu e morreu encravada no sertão do nosso Ceará.
Para elaborar este trabalho não segui nenhuma corrente teórica, nenhum estilo literário, apenas com base nos viés da história, voltado para o senso comum. Revisado pelo meu amigo Itair Sobral e Márcio Sales, em seguida, apreciado pelos ilustres escritores, poetas e críticos literários, Batista de Lima e Dimas Macedo.
Inspirada pela sabedoria dessa gente da TAPERA:
 

  Lugarejo deserto
entre o vale e o morro,
cenário escondido
guardando seu povo,
adentrando a caatinga
onde pasta o touro.
Portas fechadas,
palco sem lida,
hoje desabitada,
sem vida...
Ilusões perdidas
doce guarida!
que o tempo deixou para trás
morada dos Bezerras
ensolarada de nobreza
terra dos arrozais...!

              É-me oportuno neste momento expressar minha satisfação e prestar meus agradecimentos, em primeiro lugar a Deus, por me ter permitido concretizar este tão sonhado momento, com o apoio do meu esposo em toda essa caminhada, a direção do Centro Cultural Dragão do Mar, e a Livraria Livro Técnico representados por Diana e o sr. Sérgio, ao professor, escritor e crítico literário Batista de Lima, que muito me incentivou e prefaciou esse trabalho, a Dimas Macedo, escritor e poeta por excelência, das Lavras da Mangabeira, pelo seu grande incentivo. Me reporto para Tapera de corpo e alma e agradeço à Raimundo Morais e Madrinha, Antonio Morais e Miguelina, Alcides e Olindina, que me apoiaram de diversas formas, aos meus irmãos aqui presentes, Seve, Vicente e João e suas respectivas esposas, ao casal amigo, Itair Sobral e Margarida que estiveram sempre ao meu lado. Liduina, Olga por suas valiosas contribuições, a Sonia Machado a neta que mais paparicou Guilhermina, o elegante casal, Márcio Sales, e Olga sua noiva, a minha amiga e grande incentivadora, Euda Fernandes, O sr. Geraldo Jesuíno, eis diretor da Imprensa Universitária, bem como Sandro Vasconcelos, pela incansável paciência na elaboração do projeto gráfico, a Diana Mano Carvalho pela sua valiosa contribuição, ao casal de amigos das Lavras da Mangabeira, Gilson Maciel e Lúcia Macedo, as minhas colegas orientadoras educacionais, enfim, todas as amigas e amigos aqui presentes.
              Encerrando com o coração na velocidade da correnteza das águas do Riacho do Rosário nos dias de enchentes, formando remanso, transportando balseiros em seus mananciais, que um dia carregou-me desembocando nos verdes mares bravios de Fortaleza.
E agora? Vamos recordar GUILHERMINA, no seu mais tradicional dizer: “Vamos comer um docinho!
Muito obrigada!

Rosa Firmo


Foortaleza, 06/08/2003

O MENINO E O SALGADO

             Poeta consagrado, um crítico literário de notável expressão, um divulgador da arte literária através de seus inúmeros artigos, em jornais, revistas e livros publicados, espalhados por esse Brasil afora. Vem permeando, enriquecendo a cultura cearense com palestras e discursos calorosos, recheados de paixão pela arte da escrita. Membro da Academia Cearense de Letras, é Advogado e Mestre em Direito professor de Direito da Universidade Federal do Ceará, membro do Instituto dos advogados Brasileiro e procurador da Estado. Muito jovem ainda com uma carreira promissora, uma bagagem madura, inigualável, de uma fértil imaginação e de um estilo invejável de criticidade que lhe é muito peculiar.
              Esse menino salgado de onde veio? Como surgiu esse talento? Veio de paragens desenvolvidas? Não, esse talentoso Dimas Macedo, poeta com todas as letras. Toda essa expressão cultural começou num paraíso perdido, no vale do Salgado, na pequena, antiga e humilde Lavras da Mangabeira, lá no sul do Ceará. Foi nessa pequena cidade onde o Dimas iniciou seu mergulho, digo até profundo, nas águas doce do rio salgado, e vindo a tona atingindo a superfície, flutuando com seu espírito artístico, exprimindo sua sede de saber e o rio no seu transbordar arrasta-o na correnteza turbulenta, e lhe transporta no balseiro cultural, desembocando nos verdes mares bravios de Fortaleza.
              Dimas, ainda menino, declara na sua lira poética, o amor à sua terra, ao Rio Salgado, de forma terna e apaixonada. Possuidor de uma inteligência instigadora, ainda menino, devorava insaciavelmente os livros que chegavam as suas mãos. E com essa perspicácia, energia infatigável e o desejo de conquistar outros horizontes envereda pelo árduo caminho da pesquisa, das letras. Muito cedo iniciou suas produções literárias. Dotado de uma personalidade de multifacetas; tornou-se poeta, ensaísta, crítico literário, entre outros atributos. Hoje com uma vultosa projeção cultural, sua acuidade perceptiva constatada na sua lucidez de consciência se deixa emergir na esfera da cultura cearense.
              É no seu recolhimento que se impregna de conceitos, busca e justifica com discernimento o seu labor de escritor.
Dimas, com essa caminhada a passos largos persiste através do seu discurso, de sua poesia, purificar as águas do Salgado com sua tessitura poética.

Rosa Firmo

Fortaleza – 19 – 06 –2003


Amor e Paixão

Rosa Firmo

              Na certeza que a vida é uma canção de amor e perpassa muros intransponíveis deduzi que, só posso viver intensamente se estiver apaixonada. E estou apaixonada por mim mesma, pela minha teimosia e pela coragem de libertar-me de obstáculos que às vezes me surpreendem, e estou apaixonada pelos meus novos projetos. No passado sofri com meus defeitos, minhas deficiências físicas, às vezes insuportáveis, hoje praticamente superados. Gosto do meu cabelo, do meu sorriso, dos meus olhos grandes, embora com as rugas que despontam me incomodando, considero, pois, que elas fazem parte da matéria humana da qual sou composta. Estou aprendendo conviver com elas.
              Sou apaixonada pelo AMOR, o amor sob todas as formas, pois é amando a tudo e a todos que enfrentamos e vencemos obstáculos, entre eles o próprio tempo...
            O amor doação é o verdadeiro amor que supera que transcende nosso ser espiritual, ajudando a aceitar nossa incompletude de ser humano que somos. E’ a paixão, o amor que me inspira que me conduz e faz transbordar o pensamento em poemas.
Sou apaixonada pela vida, mesmo nas horas de tristeza porque sei que Deus vestiu-nos com mantos de esperanças com fibras de fortaleza e nos concedeu sabedoria e amor para não nos arrastar- nos dos vales escuros.
              Sou uma apaixonada pelo meu parceiro, bem como por minhas amigas e amigos. Tenho muitas amigas e amigos, é muito gratificante para mim, procuro preservá-los, Há um ser imaginário que povoa minha mente e me animo com ele.
Estou apaixonada pela literatura, e outras artes que me fascinam, como a música a pintura.
              Amo a gleba onde nasci. Tenho um sentimento ardente pela minha bela Fortaleza, e sou apaixonada por Natal/RN, que é uma verdadeira obra de arte, uma espécie de paraíso proibido, uma expressão poética. A cidade do Natal transpira poesia.           

              A vida é o AMOR, o amor gratuito que recebemos do Cosmo. Nessa perspectiva de ser pessoa amando a vida caminho em direção ao mar, da brisa amena que sopra trazendo bonança, escuto a voz do silêncio que ecoa com uma voz meiga como a mãe que acalenta o filho, dando-lhe certeza de proteção.
              Vejo a vida como um presente de Deus. E nesse turbilhão do AMOR maior, o amor doação que emerge de diferentes formas na voz poderosa e segura do Senhor que indica o caminho certo a tomar e seguir amando inundando o coração de paz.
Acato o amor que a vida me dar, bem como as pessoas que me dão apoio, amizade, carinho e amor, e em troca devoto o meu tributo e retribuo com muita intensidade.
              “O amor é doce como os acordes da lira”, e nessa doçura escuto o som da lira e enlevada pela musicalidade do amor que transcende meu ser, deixo-me guiar pela vida afora nos braços do luar e numa chuva calma de poesia.
             Acredito na vida, e trilhando como aventureira na complexidade de ser pessoa, encaro-a como as estações do ano. A primavera é como a noiva no traje nupcial, o verão é o tempo de colhermos o nosso investimento, o outono é o murmurar dos corações num apelo ao que há de vir, o inverno representa a saudade, o fim de uma temporada.
              Para ser feliz, o ideal é acerca-se de amor e viver sempre na primavera.
 


Ainda é tempo

Rosa Firmo

              Nossos sentimentos nossas emoções são interligados ao nosso sistema biológico. Eles são os pilares de sustentação do nosso autocontrole. Portanto, segundo Drauzio Varela, quando escondemos, reprimimos nossos sentimentos para demonstrarmos que somos fortes ou por outros motivos, estes respondem em forma de doenças como gastrites, úlceras, dores lombares, dor na coluna, artrose, artrites, depressão, e com o tempo a força da repressão represada se degenera em câncer.
               Para evitarmos os vilões que afetam nosso bem estar, nossa saúde, é importante procurarmos alguém para um desabafo. Confidenciar nossas mágoas, partilhar nossas intimidades, nossos segredos, nossos pecados é algo acalentador. O diálogo, a palavra, são grandes aliados, melhores que remédio, é também uma excelente terapia. “Confias teus segredos e verás que nunca estais sós”.
Sejamos, pois, protetores das pessoas negativas e carentes de afeto para torná-las mais positivas e alegres. Embora que elas suguem nossas energias. Cerquemó-las de amor e carinho. Com o passar do tempo teremos o retorno.
              Quando doamos qualquer ajuda e afeto às pessoas positivas, acrescenta-se muito pouco no nosso crescimento humano. O percentual é bem mais alto quando doamos às pessoas carentes.
Reserve um tempo para exercitar a espiritualidade, a prática de exercício de respiração e relaxamento, meditação, a oração, recitar poemas, atuar como voluntário em ações sociais, são formas de exercitarmos nossa espiritualidade.
Ainda é tempo!

Natal, 2006


Convite a um exercício de mudança

Rosa Firmo

“A vida é uma frase interrompida”
                                                                   Victor Hugo

              Somos seres humanos, com tendências para as coisas positivas e negativas. Se fizermos as nossas atividades diárias com perseverança somos capazes de realizarmos grandes feitos. Se estivermos passando por alguma dificuldade e atentarmos para algumas alternativas observaremos as possibilidades de superá-las fazendo mudanças. Sejamos cautelosos, comecemos devagar, vamos dar início pelas coisas mais simples.
              Procure alguém de sua inteira confiança para fazer seus desabafos. Não tome todos os seus conselhos, selecione os que mais irão se adequar a você. Tome apenas conselhos sábios que darão rumos a sua vida. Escute sua voz interior. Faça em primeiro lugar as mudanças exteriores.
               Procure mudar seu modo de vestir-se, doe objetos que não utiliza com freqüência ou que trazem recordações negativas, mude os móveis de lugares, sem comprar coisas novas, faça contenção de despesas. Mude seus hábitos alimentares. Mude sua rotina, tudo que é rotineiro torna-se enfadonho. Passe a observar as qualidades das pessoas, cumprimente-as. Evite pessoas que reclamam de tudo e propagam rancor e espalham energia negativa. Converse com seus amigos e amigas, dedique um tempo para freqüentar novos ambientes e fazer novas amizades. Procure recordar os momentos positivos, de coisas e lugares que lhe trazem boas recordações.
Leia livros ou periódicos que trazem conteúdos interessantes e positivos, evite leituras de conteúdos drásticos e que banalizam a violência, o sexo e o amor. Estes temas causam ansiedade, angústia e estresse. Procure preparar sua alimentação a mais natural possível, evite os alimentos industrializados, os produtos naturais contribuem para a saúde mental e física.
              Visite locais de descontração como parques, praias, jardins, curta-os colhendo o aroma da natureza e colha seus benefícios. Contemple o ambiente meditando sobre os elementos mais simples da natureza, como os insetos, os pássaros, as plantinhas pequenas. Eleve o pensamento a Deus e agradeça.
               Procure esquecer assuntos que no passado proporcionou-lhe tristeza, dissabores, não guarde rancor. Livre seu coração, sua mente e seu corpo de sentimentos destrutivos. Só você pode fazer isso.
Erga o pensamento para o que é positivo e sublime. Pratique a solidariedade e o amor doação.
              Esforce-se para estabelecer mudanças esquecendo ações que lhe causam perturbações, despreze o egoísmo e a inveja, compreenda que para construir a felicidade é somente através da prática do bem.
               Necessitamos, assim, fazermos esses exercícios diários para aprendermos viver os instantes da nossa vida com mais estabilidade e equilíbrio. Lembre-se da sensibilidade de um colibri, de uma abelha colhendo o néctar de uma flor, da luz do luar, da brisa macia que acaricia nosso rosto. Com esses procedimentos poderemos mergulhar no universo do equilíbrio e da harmonia na busca da paz interior e do cosmo.

 

Roteiro Turístico da Cidade de Aracaju

“É sempre hora de partir e recomeçar”.

 

        Arara e caju deram origem a uma bela cidade, Aracaju. Ante as demais capitais do nordeste brasileiro é ainda pacata muito arborizada e silenciosa, embora se aproximando aos ares de metrópole com o progresso urbanístico em aceleração. Permite ainda uma certa qualidade de vida. Os traços arquitetônicos, o antigo, o rio, o mar, as pontes, a simplicidade e o aconchego são coisas profundas que permitem aflorar os sentimentos como fonte que brota do rochedo.

  Aracaju dos papagaios, dos frondosos cajueiros, dos coqueirais, dos manguezais, das mangabas dos rios e pontes ah, as cocadas. Quanta delícia para uma visitante sensível e ao mesmo tempo profunda e errante, ávida por desvendar segredos; novas conexões entre o mundo de paisagens artificiais e o mundo natural.

“A vida tem sons que para a gente ouvir precisa começar de novo”.

    Na manhã, de 27 de março, cedinho, pousando os olhos sobre a bela paisagem do mar de águas turvas, da varanda do hotel, na orla da praia de Atalaia, deparei-me com a algazarra dos sanhaçus, e dos pardais e com o cheiro dos manguezais, inebriei-me e deixei-me enlevar pela fina chuva que desfiava. Como gosto de chuva, recebi como um presente daquela terra que acabara de me receber e que muito desejava conhecê-la.

“Preciso aprender começar de novo”

      Entre o congresso e conhecer a foz do Rio São Francisco, optei pelo segundo, claro, era meu objetivo maior. Em um transporte da empresa de turismo, Nozes Tur, parti para o município de Brejo Grande, entre outros turistas gaúchos, para no ancoradouro apanharmos o catamarã e navegar por duas horas nas águas do São Francisco até sua foz. Foram momentos de energização e introspecção com o divino. Um total desprendimento do real como se estivesse sitiando a orla do paraíso. Uma hora desfrutando da paisagem de águas mansas, emoldurada por verdejantes coqueirais. No momento da chegada do encontro das águas do rio com o mar, meus olhos vibraram de tanto encantamento, com tamanho esplendor e magia, que ficará para sempre na minha memória. Voltamos para o ponto de partida, porém meu desejo era de ali permanecer, ficar imóvel, inerte e nunca mais voltar à realidade.

Resgatar a memória da inclemência do tempo é preservar nossa identidade.

  No domingo, após o encerramento do congresso eu, a Maria do Céo e Maria Helena, dirigimo-nos para as cidades históricas: Laranjeiras e São Cristóvão. Laranjeiras por si só é um museu a céu aberto, Igrejas, casarios, pedras seculares, nos deleitam com olhares do passado.

   Há uma ponte toda em pedra muito antiga sobre o Rio Cotiguiba, conhecida como ponte do matadouro. Sabe-se que no século XVIII nesse rio navegavam navios cargueiros saindo de Recife para o do Rio de Janeiro e Santos São Paulo. Quando o navio demandava o canal de acesso ao Porto de Aracaju foi apanhado por fortes vagalhões, batendo no fundo e desgovernando-se. Partiu ao meio após a tentativa de resgate, no ano de 1873. Informações do guia e de moradores locais.

     A vetusta São Cristóvão fundada no ano de 1590, por Cristóvão de Barros, considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil, a primeira capital de Sergipe. A cidade nos encanta com seu fabuloso acervo de obras sacras, seu museu é um dos mais importantes do país com cerca de quinhentas peças dos séculos: XVII, XVIII e XIX. O que muito me chamou a atenção foi um antigo harmônio do século XIX, que ainda é possível arrancar um som quando se põe o pé nos seus pedais. Fez-me recordar a um semelhante que existia na Igreja de minha terra natal.

  Não resitei, seria impossível ficar indiferente deixando de registrar sobre os encantos que Aracaju nos oferece.

 

Rosa Firmo

Natal/06/04/08

 

 

O VELHO CIRCULAR

 

        Manhã alegre do mês de junho, a cidade de São Vicente caminhava devagar. O velho comércio se movimenta lento, abrigando o maior número de pessoas oriundas dos sítios a procura de resolver seus pequenos negócios como, receber a aposentadoria, fazer a feira da carne, do sal, da farinha, do feijão, até mesmo de frutas e verduras, quando sobra algum trocado, até porque na maioria dos sítios do município quase sempre não se usam o cultivo de hortaliças, bem como da  fruticultura.

     As portas dos Correios, da agência lotérica e das agências bancárias, estavam  empilhadas de gente se espremendo debaixo do sol escaldante tentando receber o vale gás, vale alimentação, bolsa escola, enfim as esmolas do governo, que não passam de verdadeiros vales de lágrimas. Um paliativo qualquer. Imaginem! Jovens, senhoras, e senhores, pessoas de bom caráter, como poderão melhorar a qualidade de vida se perdem dias em filas aguardando receber estes vales? Como poderão melhorar de vida, se o lavrador abandona o cultivo da terra em troca dos benefícios do governo federal?

         As linhas de ônibus circulam entre os municípios vizinhos transportando a população carente sem perspectiva. Lia-se no rosto sofrido das pessoas a incerteza do por vir.  No velho circular, com destino a Cedro, cedo uma velhinha fora jogada na primeira poltrona. Dois jovens trouxeram-na arrastando-a pelos braços e a desprezaram-na no ônibus a espera da partida, que decorreu por mais ou menos meia hora. Cochilando a velhinha cai por cima do passageiro vizinho. A saliva seca e branca que expelida pela boca aberta e ofegante, servindo de alimento para as moscas que zuniam festejando seu rosto inerte. 

         Lentamente as pessoas fora ocupando as cadeiras do velho circular. Motorista animado, tentando conquistar as passageiras. Ele  não perdia oportunidade.

       O circular dera sinal de partida. Alguém gritou: falta a Tiana, ainda não comprou o açúcar, o José, que foi comprar a cebola. Finalmente, o ônibus sai se arrastando. Pára na primeira esquina, o motorista não tem

pressa, quer agradar todos os passageiros. É a concorrência entre os  transportes alternativos. Uns já saem mais cedo, lotados. Ao sair da cidade pára no primeiro sítio. Desce uma pessoa. E nessa vagareza, sai parando, parando, afundando-se nos buracos da estrada íngreme, malcuidada, adentrando por grotas afora.

          A conversa no circular ficara animada ­­-  Duda, uma jovem mulher, falava para Francisca: “quando eu me aposentar pelo FUNRURAL, não vou comprar luxo. Em primeiro lugar vou  tratar de comprar  minha comida melhorzinha. Depois vou mobiliar minha casa, vou viajar. A gente num viaja de graça? é o que o povo fala!”. Não quero fazer como dona Vicência; divide todo o aposento com os cinco filhos desempregados da roça e ainda sustenta três netos”.

      Enquanto isso a velhinha dormia sossegada, embalada pela conversa dos passageiros.  O solavanco do circular, a poeira fina e avermelhada circulava pelo ar mudando de cor a toalha da  velhinha.

     Meio dia! O circular faz uma parada principal em São José de Mãe Veia. Na saída da cidade, o motorista desemboca numa grota. O ônibus se inclinava a ponto de virar nas quebradas. Imaginem! Toda essa aventura tem um motivo forte: deixar na porta de casa, a jovem senhora que ele tentava conquistá-la.

      Conversa demorada. Prossegue-se a viagem, muitas outras paradas até alcançar o riacho do Machado. Entra e saem passageiros, uns transportando galinha, burreguinho, outro um balaio de milho verde. Finalmente chega-se a Cedro, ponto final. O motorista conquistador leva o último passageiro até a porta de sua casa, ainda puxa uma conversinha, se apresentou e agradeceu todo animado, convidando para um breve retorno.

 

Fortaleza, 12 de julho de 2002


 

 
     

 

     

Fotos de Natal

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