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Conquista
Era um belo final de tarde, verão
de dezembro de 2008, na cidade de Lavras da Mangabeira, devia fazer
perto de 31 graus. Uma noite de lua cheia, ela estava magnífica, sua
luminosidade embelezando a praça da Matriz de São Vicente Férrer
saudando os intelectuais de sua terra. Afinal, Lavras, estava em
festa, com uma diferença de outros tempos. Uma infinidade de
motocicletas circulando por todos os lados. No percurso da casa da
minha sobrinha Ariete, até a praça da Matriz, contei doze motos que
passaram por mim, foi um susto, não sei ao certo se pelo trânsito
das motos ou pela expectativa da comenda que iria receber.
A missa começou com meia hora de atraso, a celebração de um
casamento fora o motivo, coisa de praxe, a noiva retardou além do
esperado.Os acadêmicos foram chegando um a um no pátio da Matriz de
São Vicente Ferrer. Enquanto aguardava-se o término do casamento
cumprimentávamos exultantes. A escritora norte-riograndense, Maria
do Céo Costa, que me acompanhava, aproveitou o momento para
registrar tudo com sua câmera fotográfica.
A celebração de Ação de Graças foi concelebrada pelos
acadêmicos, Padre Amorim e Padre Evaldo. O comentarista foi o
acadêmico Emerson Monteiro, a primeira leitura pelo presidente de
honra, Linhares Filhos, o Salmo por Egídio Barreto, enquanto a
segunda leitura por Gilson Maciel. No ofertório as bandeiras, da
Academia Lavrense de Letras e do Município de Lavras Mangabeira
foram erigidas em passeata até o altar pelos acadêmicos, Jeová
Batista e Luiza Correia e consagradas por Padre Amorim.
Após a missa dirigimo-nos em comitiva até a Câmara Municipal.
O presidente da ALL Dimas Macedo fez a abertura da solenidade,
seguida do discurso do presidente de honra Linhares Filho, a palavra
da Prefeita Ednilda Sousa Oliveira Lopes e por fim o poeta Zé Teles
saudou a todos com um belo cordel. O segundo momento foi a entrega
dos diplomas e medalhas de cada acadêmico. O cerimonialista foi
chamando cada pela seqüência numérica das cadeiras, e quando citou a
cadeira vinte e oito, meu coração foi a mil batidas por segundo:
Rosa Firmo, uma pobre mortal sendo imortalizada nas letras, uma
quitaiuense recebendo uma insígnia. Quem diria aonde cheguei! Aquela
criaturinha rude e tímida do sertão, alfabetizada em casa pelas
irmãs mais velha e só após 12 anos retoma aos estudos, rompendo
paradigmas da família. Era verdade, estava lá eu, sendo aplaudida
por intelectuais, políticos e, sobretudo, por meia dúzia de
familiares. A medalha, recebi da irmã Maria Firmo, minha primeira
professora e madrinha, o diploma pela professora da Escola Joaquim
Leite de Quitaiús, ------Com certeza essa noite estará sempre
presente na minha mente e no meu coração.
Como consegui essa façanha? A resposta é simples: fui sempre
uma jogadora: jogo sempre para ganhar ou perder, nunca para me
rejubilar com apostazinhas, nunca busquei prêmio, nem me candidatei
a concurso literários, pouco divulgo meu trabalho; apenas minha
crença que é fiel como ser humano e se traduz em resultados
positivos pelo investimento consciente dedicado com afinco a
pesquisa, a leitura e a escrita. As qualidades que sempre me
acompanharam: determinação, garra, luta e alegria de viver.
Estou muito honrada com o título, porém, todo título vem com
uma carga de responsabilidade. Estou tranqüila, pois
responsabilidade é um dos valores corporativo que cultivo.
O momento da outorga do título, em silêncio, dediquei-o em
primeiro lugar a meu Deus, a seguir a meus pais, a meu esposo
Francisco José, a minhas duas irmãs e professoras: Maria e
Miguelina, as irmãs Rosinha e Socorro que me deram guarida em suas
casas quando saí da Tapera para cursar o ginasial em Cedro, dediquei
especialmente a meu patrono, Francisco Bezerra Sampaio que me lançou
no mundo das letras, a minha irmã Seve que me acompanhou em toda a
vida universitária em Fortaleza, enfim, a meu amigo e mentor
intelectual Dimas Macedo pelo incentivo e apoio.
O próximo e grande sonho? Tornar a Academia além de uma
agremiação de sucesso em uma saída para motivar a juventude lavrense
gerando um celeiro de bons leitores e escritores.
Natal, 18/12/2008
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Pensamentos
Enche o rio do teu corpo com o bálsamo da fraternidade.
Sejamos acolhedores, a natureza agradece.
Tenhas a independência de um pássaro, e garanta seu bem estar
interior.
Nasci para vencer batalhas, conquistar espaços, conviver com
a complexidade.
Se nós humanos formos mais solidários uns com os outros, o
mundo não sofrerá fome de afeto,
Reserve um tempo, detenha-se em silêncio diante de uma flor,
de um pôr-do-sol, de uma cachoeira e
absorva a essência.
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A BARRAGEM QUE VETOU O RIACHO DO
ROSÁRIO
Era um dia de sol
escaldante, a notícia correu célere em torno da construção da
barragem do Rosário, que vetaria as águas vertentes do riacho do
mesmo nome; surpreendeu, inquietou a população quitaiuense.
A Vila ficou em polvorosa, as vantagens posteriores, pouco
interessavam. A curiosidade do povo, a ansiedade, concentrava-se
pela grande novidade e os anseios de lograrem algum dinheiro das
diversas formas com a construção, com a indenização das terras,
essas questões estavam em primeiro lugar.
Seria verdade! O Quitaiús! - Quanto merecimento! Parece milagre do
Padre Cícero, acontecimento desse porte, para um distrito tão
esquecido em tudo e por todos.
Quitaiús, distando da capital, 453 km, onde um povo sofrido, de
muita coragem, honesto, e tenaz, que vivem basicamente da
agricultura de subsistência e alguns de aposentadoria do FUNRURAL. A
cidade hoje calçamentada, sistema de abastecimento d’água, antes,
conhecida como Barro Vermelho. Piçarra vermelha, que empoeirava
tudo; da roupa mais íntima, até a alma de quem ali transitava.
Em tempos passados, o lugarejo cheirando a poeira, a urina de
animal, o transporte mais comuns nos idos dos anos cinqüenta, era no
lombo dos animais, que os donos de sítios que compõe o distrito, se
deslocavam para a Vila fazer a feira no mercado repleto de barracas
com produtos oriundos de Crato, Juazeiro do Norte e artesanato da
terra, na bodega de seu José Mendes se comprava farinha e tomava-se
uma bicada de aguardente, de volta para casa parada certa, comprar o
pão-do-reino na padaria de Virgílio Clemente.
Aos domingos a Vila ficava abarrotada, os cavalos, os burros e
jumentos, ficavam amarrados nas grades das portas das bodegas.
Afivelados com brida, estribo, cilha e adornados com arreios de
couro; as selas e as coronas acolchoadas, cuidadosamente bordadas
pareciam rechilieu e ainda coberta com um coxim, macio de fio cru.
Os proprietários se aboletavam nos balcões com o chicote em punho; o
cheiro da cachaça, do torrado e dos cigarros de fumo artesanal,
impreguinavam o ambiente. Hoje, com a globalização, Quitaiús, tem
outro aspecto, com a invasão dos meios de comunicação, a televisão
especificamente, mudou os costumes do povo; as bodegas se
transformaram em frigoríficos, os armarinhos se tornaram lojas de
confecções, roupas oriundas das grandes cidades, como Caruaru,
Juazeiro do Norte, até mesmo de Fortaleza e São Paulo, o mercado já
não mais funciona, houve um tempo que a feira aos domingos era bem
movimentada.
São Francisco viveu décadas no anonimato, esquecida dos políticos e
dos seus filhos que de lá se dizimaram. Os fundadores e outros que
por lá permaneceram, contribuíram o máximo que puderam para a Vila
sobreviver e prosperar. As questões políticas, as decisões para
melhoramento do distrito, eram todas tomadas na sede, Lavras da
Mangabeira, tudo ficava emperrado. Posteriormente, tomou um leve
impulso, veio acontecer alguma mudança somente na década de 70,
quando os filhos da terra ocuparam cargos políticos. Em primeiro
lugar, Olavo Leite, como prefeito melhorou o lugarejo em alguns
aspectos, como, pavimentando a vila, instalou uma lavanderia
pública, construiu o açude público dos Três Irmãos, a praça da
Matriz e, em seguida seu filho Carlos de Olavo, juntamente com
Raimundo Morais, Margarida Bezerra Maia, como vereadores, entre
outros, deram continuidade a algumas obras. Novamente o progresso
estacionou em vários aspectos, como no comércio, Quitaiús regrediu.
Veio o prefeito Francisco Aristides, maquiou um pouco mais a Vila;
realizou algumas obras de melhoramento.
Nesses últimos anos, sob decisão governamental, através do projeto
Caminho das Águas, do Governado Tasso Jereissati, para irrigar os
vales do sertão cearense, através da Secretaria de Recursos
Hídricos, e a SOHIDRA, anuncia uma grande novidade para Quitaíus, um
grande açude! A obra materializou-se. A construção teve inicio em
1998 e término em 2001, pela Consultoria da EngeSoft, e da
Construtora E.I.T. Empresa Industrial Técnica S/A, para assim
prender as águas do riacho e ceder lugar ao grande açude do Rosário.
O vigésimo quinto entre outros do Ceará. Como primeiro em termos de
capacidade de armazenamento d’água, temos o Castanhão, em segundo
Orós, em terceiro Banabuiú.
A notícia correu os quatros cantos da Vila. O povo se alvoroçou.
Instalou-se um zum, zum, zum, um barburim, um corre, corre, todos
querendo saber como ficaria a situação dos moradores da ribanceira
do riacho. Quem iria construir a barragem? Muitas outras
interrogações.
Começou o rebuliço, a chegada da equipe de engenheiros e técnicos da
Secretaria de Recursos Hídricos, para reunir os moradores e explicar
todos os detalhes. Os líderes da comunidade, por outro lado também
reuniram-se com os trabalhadores da roça, os meeiros, para
discutirem como ficaria a situação, bem como dos proprietários das
terras etc. Primeiro ouviam as propostas do coordenador da equipe da
SOHIDRA, em seguida analisavam as vantagens, os prejuízos que iriam
causar; para em seguida decidirem sobre seus destinos. Os pobres
lavradores, enquanto ouviam os líderes da comunidade, ficavam
atentos e aceitavam suas opiniões; logo em seguida quando reuniam-se
com a equipe do governo, já mudavam de opinião, entusiasmado com o
pouco investimento que poderiam receber pela indenização dos bens e
por seus trabalhos desenvolvido nas terras, ficavam em cima do muro.
Acreditavam que iriam até enriquecer com as pequenas quantias.
Sequiosos por dinheiro, sem uma análise mais aprofundada; o que de
fato eles tinham como direito. Finalmente, virou o jogo, e acataram
a proposta do governo. Alguns diziam, “Ah! Ora rapaz, a gente com R$
5.000,00 no bolso vamos mesmo é arrumar nossas vidas; vamos comprar
móveis, e, ainda sobra algum dinheiro para outras coisas. Vamos lá
mais, escutar opinião de Nenzão, de Rose, de Liduina, que nada! O
que a Comunidade vai dar pra gente? Tá doido compadre, vamos pegar
esse bolão e fazer nossa vez”!
Os equipamentos da Empresa EIT, chega em Quitaiús. Tratores
imponentes, caçambas, escavadeiras, máquinas de terraplanagem,
verdadeiras jamantas. As ruas se tornaram estreitas para abrigar as
enormes geringonças. Os engenheiros, os técnicos da obra, os
operários, inundavam as ruas e ocupavam diversas casas da Vila para
dar início a grandiosa novidade.
Inicia-se a destruição, indenizam-se terras férteis dos vales do
riacho do Rosário, as máquinas derrubam as mangueiras, os plantios
de milho, de feijão, destroem as casas, para dar lugar a grande
barragem. A questão seria defender os interesses do governo.
A construção da barragem revolucionou a Vila de Quitaiús, tornou-se
a grande coqueluche do momento; chamava a atenção de muita gente.
Surgem empregos temporários para um grande número de pessoas. Os
comerciantes aumentam seus estoques de mercadorias para atender aos
novos moradores. Proprietários de bares, de frigoríficos, se
beneficiando com as vendas de seus produtos antes tão fraca.
Instalam-se pequenas lanchonetes, a beira da construção, moradores
do distrito armam barracas para venderem seus produtos. Com o
aumento das vendas, até assaltantes apareceu para saquear as lojas
do comércio.
O progresso no sertão causou sobressalto para os moradores.
Despertou a atenção dos municípios vizinhos. A estrada que liga
Quitaiús a Lavras transformou-se numa verdadeira pista, de tanto as
máquinas e os automóveis dos engenheiros e técnicos transitarem.
Passaram a cuidar da estrada, aplainavam com suas máquinas, molhavam
noite e dia, para melhor transitar com seus transportes, bem como
diminuir a poeira. Os moradores exclamavam: “Ah! Agora nós temos uma
estrada de verdade, parece um tapete! Faz gosto vigiar para Lavras”!
O povo admirava a obra que, a cada dia crescia, os sítios, cedendo
lugar a uma imensa barragem.
As mocinhas carentes enlouqueciam quando se deparavam com os homens
desconhecidos. Tanto homem no lugarejo, coisa nunca vista! E os
forasteiros, aproveitavam o ensejo com galanteios baratos
conquistavam as inocentes, com promessas mentirosas, enganando as
garotas com suas artimanhas e algumas menos prevenidas deixaram-se
engravidar.
A construção prosseguia, o projeto arrojado para o pequeno lugarejo
tomava proporção. Tratando-se de uma obra pública, não se tinha
pressa. Os moradores não viam a hora do término da obra para
participarem da inauguração. Queriam ver o imenso açude cheio de
água. Assim prosseguiu por três anos consecutivos. A obra não tinha
fim, o dia da inauguração não chegava. Quando no ano 2000, o açude
começa a tomar água no primeiro inverno, os próprios moradores
inauguram, festejaram com a pesca abundante de peixes. Coisa nunca
vista, que fartura!
Quando se aproximou a eleição para governador, a obra concluída,
Tasso Jereissati, num momento inusitado, comunica aos seus
assessores e desembarca de um helicóptero no campo de futebol de
Quitaiús no dia 03 de abril de 2002; ele fez o um ligeiro discurso
de inauguração na praça da Matriz, recomendo aos jovens a
preservação da história e do acervo arquitetônico, apontando para as
fachadas das casas antigas que circundam a praça. Em seguida
levantou vôo para Juazeiro do Norte.
Hoje, o saldo de toda essa transformação, são as vantagens e os
prejuízos causados pela obra. O riacho do Rosário perdeu seu curso
normal no período chuvoso, não acontecerá grandes enchente para
banhar suas margens. No leito do rio as águas correrão somente, à
medida que as comportas abrirem-se, determinada por um técnico.
Contudo, a população tem peixe com facilidade, a irrigação para os
plantios se tornou possível para alguns, em qualquer época do ano,
pois, ainda não existe o incentivo do governo para tanto, a Vila foi
beneficiada com o abastecimento d’água, também sua sede, Lavras,
desponta uma área de lazer para os moradores, aproximou outros
municípios, como Aurora, Granjeiro, a própria sede do distrito, onde
aos finais de semanas reúne inúmeras pessoas para o banho na
barragem. A agrovila é um outro fator preponderante, para os que
afastaram-se de suas antigas moradas para ceder lugar à obra. Outros
benefícios poderiam surgir de acordo com os interesses dos
administradores da sede e do distrito.
Fortaleza - 28/ 11/2002
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Incêndio do
barraco.
Ao amanhecer do dia, logo
observei uma espessa camada de faíscas pretas derramadas por todo
meu jardim, invadindo a casa. Fiquei a matutar sobre o que teria
acontecido. Abri o portão, o barraco da praça havia desaparecido.
Nada constatei. Por volta de 4:00 horas da madrugada, o barraco do
Carlos fora incendiado de forma barbaramente estúpida por autoria
não identificada. Foi despejada gasolina sem dor nem piedade sobre
as peças de madeira e palha que formavam o barraco. O criminoso
ateou fogo desumanamente. Carlos encontrava-se no barraco dormindo
com sua esposa, e a cachorra. Logo que ouviu o estalido saltou fora
com a família e ficou de longe observando tudo acontecer atônito sem
nada entender. O fogo consumiu todas as tábuas, e seus pertences que
seu ninho circundado ao redor da antiga árvore da praça que também
foi crestada, bem como a carnaubeira.
Não foi possível determinar a causa do incêndio e, nem fazer o
registro da ocorrência, a polícia técnica não pode ser acionada, uma
vez que o barraco era algo irregular. Ele apenas nos adiantou que o
motivo do crime não tem explicação. Supostamente, não teria partido
de outro motivo senão rixa?
Carlos, homem jovem, embora morador de rua sofrido, aparentando mais
ou menos trinta anos de idade. Chegou devagar à praça acompanhado de
sua e uma cachorra há pouco mais de oito meses, foi encostando umas
tábuas velhas, colchonete rasgado, entre outros trapos. Aos poucos
foi montando seu barraco em frente aos antigos e conhecidos
prostíbulos da São Pedro; no tronco da velha árvore, na descuidada
praça das Rocas. O Gomes sempre prestava socorro, auxiliando-o com
um pouco de comida, roupas e calçados usados. Vivia ele
harmoniosamente com a vizinhança. Sem trabalho catava lixo,
arranjava alguns biscates nos dias de feiras das Rocas.
Sem barraco, hoje Carlos vagueia pelas ruas com ares de mendigo
despejado, sem amparo, sem direção, vítima da desigualdade social.
Que mundo é esse que vivemos? Onde estão nossos
representantes do poder público? Representantes da Igreja local?
Divago com meu espírito imerso de compaixão.
Analiso que minha omissão de cidadã também interfere nesse
processo. Temos que nos dar as mãos, fazer algo mais consistente que
possa minimizar a situação atual dos moradores de rua desse bairro
que são muitos.
Natal,
04/11/2008
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Naquela Noite
A vetusta Lavras, Princesa do Salgado com seu charme, posta
no alto-jaguaribe, porta de entrada do Cariri. Fica a muitas léguas
de sertão neste imenso Ceará adentro, onde tudo seria um sonho se
não fossem as distâncias e as dificuldades do povo. Contudo, até
esses empecilhos soluciona-se: porque as distâncias não importam a
quem não quer sair de onde está; e as dificuldades, o sertanejo
acostumou-se conviver com elas. Segundo Guimarães Rosa “o sertão
está em toda parte”. Lavras é, pois um oásis cultural no sertão.
Ali, naquela cidade, naquela noite, naquele jantar,
celebrou-se o mais inusitado dos acontecimentos histórico-cultural,
o grande legado, tudo que Dimas Macedo sonhou e planejou juntamente
com outros lavrenses. A noite estava encantadora, a lua postada num
ângulo tão próximo, refletida nas águas do Salgado, aventurando-se
enfeitiçar os poetas. A Câmara Municipal engalanada de luzes, cores
e tenda de livros para receber os acadêmicos, autoridades políticos,
estudantes, representantes de diversas escolas entre outros
convidados.
Lavras, pois, nesse misto de antiguidade, cultura, beleza, e
acirramento político, naquela noite, no seu apogeu foi agraciada com
a relevante comenda, para seu engrandecimento, a Academia Lavrense
de Letras. Momento ímpar, indescritível, um acontecimento sui
generis, portanto o maior de todos os tempos. Um dos objetivos desse
projeto: realçar a memória de seus filhos ilustre como, Almir Pinto,
Afonso Banhos, Antônio Augusto, Cabral da Catingueira, Francisco
Francílio Dourado, Francisco Bezerra Sampaio, Irmã Ferrer, Idelfonso
Correia, Filgueiras Lima, João Climaco Bezerra, João Gonçalves,
Joaryvar Macedo, Josafá de Lima, Joel de Lima, José Linhares, Padre
José Joaquim Xavier Sobreira, Lobo Manso, Julieta Filgueiras,
Gustavo Augusto, Gilberto Milfont, Gustavo Augusto Lima, Maria
Oliveira Dias, Madre Bezerra, Manoel Gonçalves de Lemos, Moreira
Campos, Prisco Bezerra, Tota Bezerra, Pery Augusto, Stela Sampaio,
Sinhar D’ Amora, Vicente Augusto, Zito Lobo e José Joaquim Xavier
Sobreira.
A equipe do Dimas Macedo foi bastante generosa, não deixou
fora da Academia nenhum dos lavrenses que contribuíram e contribuem
para seu desenvolvimento cultural; seja erudito ou popular
envolvendo as diversas áreas do conhecimento.
E assim Dimas Macedo, homem de grande sensibilidade e
espiritualidade instalou a Academia Lavrense de Letras para orgulho
da nação Lavras da Mangabeira. Agora nas rochas do Boqueirão não
somente escorrem águas do Salgado e sim o líquido transparente da
intelectualidade lavrense.
Muito acertada foi a idéia do Dimas Macedo, pois, a
repercussão já suscita o interesse do seu povo em querer compreender
as funções dos acadêmicos e da própria Academia. Uma pergunta
instigante e inteligente da adolescente Rayla Pires Bezerra Morais,
durante o jantar. “E agora tia, o que vocês irão fazer com
essa Academia?”.
Cabe a cada um de nós darmos uma resposta condizente aos
anseios da juventude lavrense com ações: profícua, pontual e
contínua.
Natal, 16/12/2008
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TGV
- O Trem – Bala
Numa excursão de vinte e quatro dias pela Europa visitando os
santuários europeus, nosso plano junto à agência de viagem seria
fazermos o percurso de quatro países por via rodoviária. Na volta de
Israel, em Paris, o ônibus que estava nos conduzindo, fretado pela
agência apresentou problemas, impossibilitando de prosseguirmos a
peregrinação como estava programado. Ficamos na “cidade luz” por
mais um dia. Quando deveríamos sair pela manhã de quinta-feira para
Lourdes. Até nossa guia local providenciar bilhetes para irmos de
TGV. Um comboio de alta velocidade; o popular trem-bala, que perfaz
uma velocidade de 300 quilômetros por hora. Enquanto isso, ainda
voltamos às compras e visitamos outros pontos turísticos não
programados. Passamos o dia na rua enquanto nossas bagagens ficavam
num guarda- malas do hotel, e ainda fomos rever a torre Eiffel.
Todos nós excursionistas éramos marinheiros de primeira
viagem nessa empreitada. Nem mesmo o nosso guia espiritual havia
viajado de TGV. Quanta expectativa! Não poderíamos deixar de ir a
Lourdes, um dos principais roteiros de peregrinação. Lourdes recebe
aproximadamente um milhão de visitantes anualmente, mais de 150
países.
Reunidos no hall do hotel em Paris, nossa guia explicou como
deveríamos tomar o trem. Em primeira mão, fez um alarde assustando
todos nós do perigo que poderíamos correr se não seguíssemos todas
as suas instruções.
De volta da Terra Santa, e das compras em Paris, cada um do
grupo portava uma bagagem excessiva para o tipo de transporte que
iríamos utilizar.
A orientação da guia deixou-nos assustados, temerosos.
Tomamos táxi até a estação do TGV Atlantique em Monteparnasse com
saída para Lourdes. Uma companheira de viagem lamentava sentindo-se
mal, um friozinho na barriga, só de imaginar a subida com sua enorme
mala e outros três volumes.
Na ampla estação, inúmeros viandantes, estrangeiros
inexperientes, avisados a conduzir as bagagens através de um
carrinho que funcionava com uso de uma moeda. Cada um de nós procura
seguir as pistas dadas por nossa guia local. Na prática não
funcionava. Os carros travavam, atropelávamos uns aos outros, com
medo de perder o trem. Segundo a nossa guia, depois de três minutos
que as portas se abrissem, se nós todos não entrássemos, no trem,
este partiria nos deixando para trás. Imaginem, cada um portando
malas, sacolas e ainda por cima teríamos de retornarmos para colocar
os carrinhos de volta no local onde pegamos para tomarmos o trem. O
TGV deu sinal. A Guia avisa: dois minutos para subirem. Soou um
alvoroço total, todos querendo entrar no trem ao mesmo tempo; cada
um portando de quatro a cinco volumes. Esquecidos da ética
engalfinhavam-se uns nos outros; uma verdadeira luta corporal.
Empurrões, gritos de socorro - completo vexame! Uma integrante do
grupo desmaiou, era uma distinta e elegante senhora cearense de
Senador Pompeu; outra se machucou, caindo por cima dos passageiros
que já estavam no trem, um verdadeiro horror. Entramos no
compartimento errado, no de primeira classe. Nossos bilhetes seriam
para o de segunda. É impossível descrever o ar de espanto que
demonstraram os elegantes passageiros com nossa invasão
desconcertada no compartimento de primeira classe do comboio. Ainda
ficamos às voltas para arranjar espaço para todos e às tantas
bagagens. Após acomodarmos as bagagens, aí estávamos nós, prontos
para a descoberta do maior centro de peregrinação mundial, Lourdes.
O trem perfazia esse percurso em cinco horas e meia, numa velocidade
de 300 quilômetros por hora. Enfim, todos sentados. Por essa altura
o cansaço era enorme. Eu e uma outra companheira de viagem exaustas
do susto e do atropelo dirigimo-nos para o luxuoso bar do TGV a
procura de algo que nos reanimassem. Tomamos um delicioso cappuccine
acompanhado do verdadeiro croassã francês. Saímos revigoradas para o
vagão de primeira classe.
De volta no compartimento, da janela observava a paisagem,
não era fácil decifrar o cenário pela alta velocidade do trem, um
sonho indecifrável, uma realidade concrescível. Nossa guia cearense
conversava em inglês com um ocupante estrangeiro informando-se de
detalhes sobre o desembarque.
Completada duas horas e meia chegamos a Lourdes, que fica
situada na região montanhosa dos Pirineus. Dirigimo-nos ao hotel,
para um merecido descanso. O primeiro objetivo seria visitar o
Santuário e a gruta onde a “Imaculada Conceição” apareceu a
Bernadete. Durante o percurso observamos a infinidade de hotéis e
lojas de suvenires que se concentram ao redor do Santuário.
Visitamos as piscinas de cura, a Basílica, e bebemos água da
nascente, e colhemos em reservatórios antecipadamente adquiridos nas
lojas de suvenir para presentearmos nossos familiares. Acendemos
velas na gruta, visitamos a capela onde se encontra o corpo de Santa
Bernadete que permanece incorruptível. Fizemos todos estes roteiros
pela manhã. À tarde, fora do circuito de peregrinação, fomos eu e
uma companheira, ao museu, e depois fomos subir no Funiculaire do
Pic du Jer, um bonde elétrico construído em 1900, que sobe os
Pirineus, uma montanha com altura de 1000 metros. Uma deliciosa
aventura! À noitinha participamos da procissão iluminada, como uma
moldura que contorna um castelo. O rosário recitado em diversos
idiomas, ao som de cânticos de glória à Imaculada Conceição. À
frente da procissão observamos um grande número de macas e cadeiras
de rodas transportando pessoas doentes pedindo cura para seus males,
todos acompanhados de enfermeiros. Foi um dos momentos mais
emocionante da peregrinação. Encerrado nosso roteiro de visitas
voltamos ao hotel para preparamos as malas, e, no dia seguinte,
prosseguirmos o roteiro para Madri, desta vez, por via rodoviária.
Dos santuários visitados, Lourdes foi o que mais me
impressionou, depois de Belém, local da natividade de Jesus, que me
pareceu muito original em alguns aspectos.
Fortaleza,
22/12/1999
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Vitrais da minha
infância
Iluminei
os porões da memória evidenciaram-se as mais perenes lembranças e os
infinitos desvãos dos meandros da sofrida existência.
Rosa Firmo
Descortinando os porões da memória afetiva, vadeando rios,
atravessando veredas, ao longe alcancei o alpendre ao balançar das
redes de varandas, os gibões de couro, as selas de montaria, os
arreios e outros apetrechos. Marejei, ao escutar a algazarra do
assum-preto, do sanhaçu, do bem-te-vi, o vôo apressado do nambu, de
sobressalto reparei nos baús revestidos de couros, desenhados
monogramas com botões de metal dourado, herança dos artesões
advindos da Ibéria.
Dos
vitrais da memória olhei os balaústres do meu alpendre, inertes,
firmes; o vento soprava quente trazendo a poeira, o cheiro do fartum
do curral das vacas, do chiqueiro dos bezerros apartados. Ali
pertinho do alpendre a cerca de faxina, as pontas branquinhas
decoradas com cascas de ovos, separando a casa, nela se enroscava o
pé de melão São Caetano. Pertinho dali, o pé de bugari, o pé de
lírio exalando cheiro refrescava os sonhos inocentes.
Nesse recanto
escondido do sertão morava um povo simples e ordeiro que conduzia
rebanho de gado, de ovelhas, de cabras de porcos. Povo que
trabalhava no roçado lavrava a terra, colhia arroz, milho, feijão,
algodão, trabalhava bem o couro de boi, cru e curtido.
O gado era considerado um elemento sagrado do povo do sertão. Havia
um dia quase solenemente, numa manhã, ou, à tardinha, o vaqueiro
junto ao patrão passava a peia nos garotes recém-comprados e nos
nascidos, para selá-los com suas marcas de ferro, tais os rudes
brasões de Virgílio Maia, a arte armorial de Ariano Suassuna, a
heráldica sertaneja de Osvaldo Lamartine.
O
proprietário destemido com o ferro quente em ponto de brasa
protegido de um cabo bem comprido de madeira e sabugo de milho que
ao ferrar chamuscava o couro do animal que exalava o cheiro de
queimado, parecendo churrasco. Os garrotes esperneavam aos
esturros e berros que misturavam-se a minha dor.
Dos vitrais da
minha infância lembro-me que se celebrava a festa da matança do boi,
do carneiro gordo para comer o sarapatel. Ah! A matança do porco,
degolado a facadas e dependurado no caibro para escorrer o sangue
usado no preparo do chouriço. A carne, o toucinho que,
solidariamente repartia-se entre a parentada e a vizinhança, gesto
que se repetia quando um outro parente ou vizinho realizava a
matança de um desses animais.
As
mulheres. Ah, as mulheres, artesãs anônimas do crochê, do bordado à
mão, do fuxico, do fuso de fiar algodão, da renda de almofada com
fios de algodão a partir de bilros e espinhos de mandacaru; arte
advinda do ecletismo português, negro, índio, cristãos novos, esse
rico caldeirão de brasilidade. Essas artes autenticamente femininas
de mulheres bravias que se ornamentavam para amenizar as durezas da
vida sertaneja. As mulheres do sertão se esbaldavam no trabalho
doméstico, um trabalho muito áspero para nossos dias. Acordar com o
galo que mais parecia uma prece no seu cantar nas madrugadas frias.
A ordem seria espichar o corpo, arregaçar as manga para a labuta de
acender o fogão a lenha, usando querosene nos gravetos apanhados de
véspera nas caatingas. Preparar o café na chaleira de ferro com
rapadura; coar o leite no guardanapo branco bem lavado com uma marca
vermelha em ponto corrente, em seguida preparar o beiju, com
manteiga da terra e, ao mesmo tempo, já colocava a panela de barro
na trempe com o feijão de corda e toucinho; pisava o milho para o
cuscuz; fazer o queijo de coalho, espremido manualmente, noutra
panela preparava-se o queijo de manteiga, comida fidalga, que se
comia na hora, em fios quentinhos. Num cantinho do terreiro, castrar
os frangos à faca, uma faca de cozinha amolada, sem anestésico, a
sangue frio, crueza impiedosa, depois fazia-se a sutura com linha de
costurar e polvilhava-se com borralha de lenha do fogão. Só as
mulheres valentes do sertão não temiam a estes atos tiranos. Quanta
coragem desprendida! A luta árdua e contínua se estendia na noite
adentro, nem os grandes restaurantes de hoje assemelha-se à tamanha
labuta sertaneja.
Do
vitral de minha infância recordo o “engenho”, a moagem era uma
festa, degustava-se o mel de engenho com farinha, o melado no tacho
antes de dar o ponto de rapadura, com um pedaço de cana previamente
raspado, molhar naquela mistura e pegar com as nossas mãos, puxa,
puxa-puxa, que delícia! A garapa, de cana tomava-se com limão para
não dar raposa, uma gastura comum aos que abusavam sem o uso do
limão.
A meninada desprendida no seu gáudio retirava resina dos pés de
angicos, comiam enchendo a boca sujando os dentes e assava castanha
de caju na lata de querosene, cortada na horizontal envolvendo todo
o terreiro em fumaça que se evolava pelo ar junto com os sonhos do
porvir. Essa castanha seria pisada no pilão com rapadura para ser
saboreada sem que se soubesse o valor nutricional que essa mistura
continha.
Pelos caminhos
da roça, lá estava a meninada a correr descalça, sem medo de
estrepar-se nos espinhos, pisar nos estercos das vacas, nem tão
pouco nas cobras com que de repente se deparavam. Era uma
constante brincadeira até não ser chamada para o trabalho- hoje
considerado trabalho infantil , na época não considerado “exploração
- nem de longe se sonhava com a existência de um estatuto da
criança e do adolescente. Era tudo muito puro e duro, sem regalias e
sem réplicas.
“Os vergões
das feridas purificam do mal, e os açoites, o mais íntimo do corpo”.
(Provérbios 20-30). “São purificações das marcas, como também
pancadas que penetram até o mais íntimo da mente”.
Fortaleza, 22/12/1999
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UM
VAGA-LUME NA ESCURIDÃO
Minha existência foi pontilhada de transição entre luz e
penumbra, muitas vezes fugindo do isolamento. Na infância admirava
pessoas corajosas, preparadas e intelectuais. Elas tinham uma
luminosidade para mim. As palavras diferentes soavam alto, tinham
uma conotação especial. Isso me despertava uma eloqüência na alma,
uma emoção forte. Na minha adolescência, foram inúmeras cortinas
nubladas, escuras até. Pouco a pouco acenando uma pequena clareira,
o oásis em meio às asperezas do sertão.
Na idade adulta nunca consegui apagar a chama de minha mente
e do meu espírito inquieto de força transbordante e esplendorosa.
Não de uma luz fraca de vaga-lume, mas de diversos vaga-lumes,
luzeiros no meu caminho. Foi o meu limiar na educação – substituta
de uma colega no antigo Mobral (Movimento Brasileiro de
alfabetização de Adultos), na periferia de Fortaleza.
Lembro-me como se fosse hoje, sala pequena, sem reboco,
tijolos mal caiados, coisa esquecida, meio abandonada. Ali, no
bairro alto da Balança.
Fim de tarde quente de setembro, ano de 1972. Eu ainda
mocinha, de densos cabelos pretos, curtinhos. Tímida ao extremo.
Temerosa, excitada, sonhadora. Os alunos, jovens, outros mais velhos
que eu, entre esses alunos constava na turma a minha irmã Seve,
também mais velha que eu.
Homens, mulheres, jovens, empregadas domésticas, mãos
calosas, unhas maltratadas da labuta diária, mal vestida.
Semi-analfabetos todos eles! De pai e mãe e de destino. Poucos
sedentos de aprendizagem, traçando suas frases curtas desordenadas,
suas leituras gaguejadas. Todos me olhando, tímidos, curiosos,
indagativos, rostos bronzeados do sol de praia dos finais de semana,
sob iluminação precária da sala humilde.
De repente a noite cai, escurece, os bancos de tábuas são
postos para fora da sala. Ao cair da noite, aproveitando a luz do
poste, a aula continua ao ar livre no pátio da igreja com dinâmicas
e debates sobre o Sistema Educacional do Brasil, arriscando uma
improvisação. Decifrando os traços daqueles rostos voltados para
mim. Deus! Como foi interessante aquele momento! Como foi absoluto,
inesquecível!
Aquela aula improvisada foi como uma luz, um feixe de
vaga-lume na escuridão despertando minha carreira de educadora que
começou naquele dia, ali, ao relento, sem muros, pura liberdade, que
eu tanto sonhara, porém bancos rústicos repletos de pessoas humanas
com expectativas, sonhando com o saber. Naquela noite, naquele
bairro. Naquele instante a magia da educação penetrou no meu ser.
Hoje, mais de três décadas são passadas. Mas foi naquele
momento de luz que despertou a minha vocação de educadora. Fui
professora de adultos, de crianças, secretária, coordenadora,
vice-diretora, e hoje orientadora educacional, a mais bela e mais
essencial das especializações no campo da educação.
E novamente os vaga-lumes! Luzes e sombras permeiam minha
caminhada, entrelaçada, intercalada numa constante simbiose mútua,
procurando produzir o essencial para não esmorecer, para não parar
nem esmaecer no tempo. Coragem e espírito de luz sempre irão me
acompanhar.
Fortaleza, 01 de julho de 2002.
LAGOINHA
Na chegada ao restaurante do hotel, depois de acomodar as
bagagens no quarto, falei para o Gomes, para não se aborrecer
comigo, pois iria conversar com o garçom, com os nativos daquele
lugar, queria sair bem informada. Precisava conhecer a história
desta natureza exuberante, bela e deslumbrante. Queria saber como se
deu o povoamento da região de Paraipaba.
Tirei o meu chapéu. Gomes pediu uma cerveja, o sol estava
escaldante, nenhuma aragem, era quase meio-dia; final de dezembro, o
hotel estava praticamente vazio. Os nativos solícitos logo se
aproximavam e ofereciam seus serviços: (verbalizavam, cuidamos do
carro). “Olhem senhores, temos os passeios de jardineira, de
jangada, de triciclo, os buggys estão saindo logo mais, se quiserem
podemos levar vocês à Lagoa das Almécegas, à casa de farinha etc”.
Dispensamo-los, com as desculpas de fazermos no dia seguinte.
Passamos o dia fazendo o reconhecimento da área. Repousamos e nos
recolhemos cedo ao quarto do hotel, subindo devagarzinho a
infinidade de degraus.
O dia amanheceu quente. Da varanda do quarto, ali inerte,
olhos pregados na imensidão do mar verde-azulado. Descemos para o
restaurante. Findo o café, um senhor aparentando seus 80 anos,
sentado numa cadeira, ali tomava Sol, dava ordens aos empregados e
cumprimentava os hóspedes que por ali passavam. 9:00 horas, subimos
ao quarto para escovar os dentes. O
silêncio envolvia o hall do hotel. O sol batendo na varanda. Nem um
pouco de brisa morna soprava. O mar estava calmo; os pássaros
pousavam na soleira da varanda do restaurante, sequer, assustava o
velho sonolento. O empregado da prefeitura empunhava o chicote,
tangendo o boi preso na almanjarra, puxando a carroça, transportando
o lixo da praia. 10:00 horas, de sexta-feira. Começava a chegar as
vans lotadas de turistas do sul do país. Uns portando filmadoras,
outros com câmeras fotográficas a tiracolo. As senhoras espalhando
os protetores de pele, colocando os bonés, outras, grandes chapéus,
as crianças pulando de alegria; os encarregados das jardineiras
corriam para oferecer os passeios já programados do pacote
turístico. As jardineiras saíam lotadas de gente e de sonhos. Quanta
coisa o cearense se orgulha em oferecer! 13:00 horas, todos de
volta, todos esperando à mesa, experimentar as iguarias típicas do
Ceará: peixe, pirão, camarão, lagosta, etc. tudo era muito atraente
aos olhos do povo do sul. Crianças nativas, da Lagoinha
debruçavam-se no para-peito do restaurante com as bandejas de
cocadas pretas e brancas. Gritavam, “ajudem minha mãe, comprando
minha cocada, apenas por R$ 1,00”.
Logo depois, os turistas tomavam as vans, rumo à Fortaleza.
Calava-se o rumor das jardineiras, dos triciclos, das crianças.
Olhava-se para a piscina, a água azul parada... Todos os
hóspedes recolhiam-se para a sesta. O Sol ardente brilhava sobre o
morro dourado, cartão postal da Lagoinha. As palmeiras, as
buganvílias nem se mexiam. Duas horas depois reapareciam os
hóspedes, o velhinho retomava sua cadeira; as crianças caíam na
piscina. Na varanda do quarto, uns liam livros, revistas, outros
ainda dormiam nas redes de varandas em frete ao mar. Os empregados
do hotel, uns jogavam sinuca, outros o jogo de baralhos com o
velhinho no saguão da pousada. Enquanto a maré enchia, trazia os
encantos e a magia nas ondas que quebravam rumorosas e brilhantes,
enquanto o sol batia sobre a crista das ondas que subiam alto. Eu
ficava em up time. O imponente morro de areia dourada esta ficava
mais escura com a luz do Sol. A tarde começava a cair. Alguns
hóspedes se exercitavam em longas caminhadas pelas areias úmidas da
praia. Uma vastidão. Um silêncio. Só se escutava a música do mar, um
convite à meditação. Uma jovem mulher tomava banho brincando com as
ondas que quebravam forte fazendo-a rolar despreocupada pela areia.
Ao retornar para o quarto do hotel, subindo 108 degraus.
Fomos pra varanda admirar o clarão vermelho do pôr-do-sol que pouco
a pouco esmaecia. O céu escurecia lentamente. Aos poucos surgiam as
estrelas, era quase noite. O Gomes, autêntico visionário, a contar
suas histórias de viagens pelo exterior. A brisa da praia não
apareceu, nem mesmo a toalha estendida na varanda se movia. A noite
se apossa do hotel, o mar ficava mais escuro, ninguém conseguia
enxergar as jangadas estacionadas ao lado. Os hóspedes recolhiam-se
aos seus quartos, ouviam-se as conversas, as músicas espremidas que
saíam de pequenos aparelhos de som, nos quartos dos vizinhos. Alguns
fugindo do calor armavam redes e dormiam nas varandas. Fechava-se o
hotel; um silêncio budista invadia o ambiente. Só o mar murmurava.
Música harmoniosa. Calmaria, bom descanso. O domingo chegou, o
passeio acabou, na volta para casa, só alegria, contentamento de ter
desfrutado bons momentos. Muita energia adquirida para enfrentar o
dia-a-dia...
Dezembro, 2001.
A VILA SÃO FRANCISCO
Nuvens de poeira, sol escaldante, homens e mulheres animadas
tagarelando pela rua principal da vila à espera da missa das dez
horas do domingo. O sino repica abafando o barburim da multidão. As
barracas da feira estão abarrotadas de produtos oriundos de Juazeiro
e de Crato; rosários de coco, cachimbos e chupetas de açúcar, pentes
de chifres, bonecas de louça, fitas de tafetá, mantilhas de tule,
entre outras variedades. E ainda as variadas panelas e alguidar de
barro das artesãs do sítio Varas. A vila se agita. O sino dá o
último aviso, o povo ordeiro dirige-se à capela, nuvens de incenso
no altar, mulheres de cabelos brilhando, solto nos ombros, bem
tratados com banha de porco. Meias finas envolvem as pernas
cabeludas das mulheres do campo. Mantilhas sobre as cabeças, peça
obrigatória para as mulheres assistirem o ato litúrgico. As senhoras
da irmandade do Apostolado da Oração tomam seus acentos especiais,
cadeiras com espaldar de palhinhas, inicias gravadas na testeira. O
padre Alzir, de costas para o público, inicia a celebração rezando
em latim. As pessoas não compreendendo o idioma, cochicham sem
preconceitos, despreocupadas. As “Filhas de Maria” e as mulheres
mais fervorosas debulham o terço enquanto o padre faz exortações na
homilia.
Após a missa, gritos de crianças na pia batismal, assustadas
com a pancada da água benta despejada nas cabeças com uma caneca
aparada numa bacia de ágata. As crianças esgoelam-se ao serem
batizadas. Envolvidas nos longos cueiros de algodãozinho e camisas
de tricolina bordadas; mijando e suando com o calor escaldante,
enchendo-se de brotoejas. E nessa agitação, Marieta mangando das
marmotas do povo, se divertindo das bolhas nos pés da comadre Zefa,
estropiada dos tropicões nos buracos, com as alpercatas de sola
ressequidas que ficara guardada, empoeirada, meses... aguardando um
dia de missa dominical na vila.
A feira se anima, as bodegas lotadas de homens riscando os tijolos
com as rosetas das esporas; comprando um litro de sal em pedras,
café de Baturité em grãos cru, farinha de mandioca, tomando uma
bicada de pinga e fumando cigarros de fumo [de rolo]. Mundim
Santana, na esquina, tratando dos negócios de gado com seu Tonico.
Os animais selados cochilam e babam, amarrados nos balaústres das
casas aguardando seu dono para a volta aos sítios.
Contritos. Ações cumpridas, retornam às suas moradas com os
alforjes e os bolsos das caronas abarrotados de mercadorias, de pães
quentinhos da padaria de Virgílio Clemente. E a alma leve pelo
cumprimento às obrigações cristãs.
Fortaleza, 14 de novembro
de 2003.
Textos Escolares
Lições de 1982
SERVIÇO DE ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL
Chegamos ao final de 1982, podemos sentar na cumeeira, como
Jesus nos recomendou, para gritar do alto o que ele nos falou ao
ouvido, pois, a coruja tem outro modo de ficar sobre o telhado.
Avaliar um ano é tarefa difícil. Não há balança para pesar ou
mensurar nossas ações, opiniões e nossos valores, pois são às vezes
muito subjetivos. Em todo caso, não se pode deixar passar um ano sem
tirar conclusões valiosas.
Se não tomarmos consciência do que aconteceu, como festejar o
final de ano? É incrível como muitos conseguem fechar os canais de
comunicação. Ao assumirmos uma ação consciente sem a informação
necessária faltará a formação.
Muitos fatos aconteceram independentes de nós, este ano, nem
é necessário estarmos a par. As alegrias e as esperanças, as
tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos mais
carentes, são também as alegrias, as esperanças, as tristezas e as
angústias dos que militam no caminho de Deus.
Não basta ficar sobre o telhado de 1982, como corujão. Alguns fatos
que aconteceram neste ano já até os esquecemos. Alguns ficarão
gravados. Tomara que não os esqueçamos de tudo.
Entre muitos fatos positivos e negativos, valem ressaltar alguns
como, o desastre aéreo de Pacatuba, a guerra das Malvinas, a Copa do
Mundo, as nossas eleições livres e diretas, depois de quase duas
décadas, os movimentos revolucionários e de repercussão na Polônia,
Israel, a morte de uma senhora que tentava o bebê de proveta, nosso
trabalho de formiguinha como educadoras e educadores. Outros fatos
aconteceram, é impossível enumerá-los.
Tudo isso despertou em nós, certamente, melhor senso crítico,
ou ao menos um certo bom senso, pois reconhecemos que estamos longe
de termos um senso histórico. Somos ainda muito jovens e é, muito
difícil criticar os acontecimentos jogados por uma civilização
pluralista, com um demasiado prazer de simplesmente produzir coisas
úteis para o lucro.
Não desanimemos!
“Viver é um dom de Deus”
“Vivemos vivendo e aprendendo”
A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Através de uma pesquisa realizada com os jovens em uma escola
X, cuja pergunta era a seguinte: “Quais suas maiores preocupações em
relação ao futuro”?
As principais respostas foram pela ordem: desemprego, violência, e
as drogas. Aliás, sob certos aspectos, esses itens se
inter-relacionam, pois como se diz: a ociosidade é a mãe de todos os
vícios” e a violência está muito ligada ao uso de drogas.
É necessário salientar que a violência na escola é resultante
das expectativas frustradas dos jovens, isso sem falar em outros
determinantes como: ausência de limites pelos pais ou responsáveis
(educação muito permissiva); baixa auto-estima, estímulos dos meios
de comunicação; ausência de afeto, entre outros.
Observa-se que, a violência, vem ocorrendo nas escolas com
maior freqüência ultimamente e são influenciadas por fatores
externos já citados acima, explicitamente claros para nós educadores
alertamos; deixando de lado velhos paradigmas e instalarmos outros
novos que possam favorecer e reverter este quadro. Não é uma tarefa
fácil, a palavra chave é a CRIATIVIDADE, que deve está presente em
todos os momentos como, por exemplo, utilizando-se dos parâmetros
curriculares nacionais, especificamente, trabalhar com os temas
transversais como; a Ética, Orientação Sexual, complementando
especialmente com arte cultura e esporte, encetando com muita ênfase
o compromisso e o amor. Adotemos esta prática já!
Sabemos que se faz necessário um movimento bem mais amplo,
pois as drogas pelos seus próprios efeitos podem levar à violência,
principalmente em personalidades predispostas. Não se pode desistir.
O papel do educador, sua missão é muito importante, a ordem é não
desanimar, “desistir nunca”.
Nos atendimentos individuais, nas vivências realizadas ao longo do
processo escolar, num trabalho sistemático registro depoimentos das
crianças e dos jovens.
Depoimento dos alunos:
Brigo, chuto meu colega para descontar o que ele fez comigo. Meu pai
faz assim com minha mãe. (M. S. F. – aluno de 9 anos)
Tenho vontade que a minha fosse assim como à senhora, não falasse
grosseiro comigo, me escutasse. (B. S. G. – aluno de 8 anos)
Queria que a minha escola fosse mais alegre, tivesse mais festas.
Curso de dança, de música. (M. C. S. – aluna de 13 anos)
Na nossa escola, Creusa do Carmo Rocha, onde realizo atividades
psicopedagógicas, não consideramos o nível de violência como as
demais escolas da nossa capital; ainda há uma certa harmonia, um
clima de camaradagem entre os alunos e o relacionamento dos mesmos
com os que fazem a escola é considerado bom, apesar de sempre
existir nos recreios brincadeiras pesadas, bem como denúncias de uso
de drogas como inalantes nos banheiros nada assustador. Portanto nos
consideramos da paz.
Fortaleza – Outubro de 1999
Textos Bucólicos
A CASA DA TAPERA
Para os canais de percepção de menina interiorana sem a
consciência dos confins, o mundo parecia pequeno, era apenas o que
se estendia ao redor, o campo visível em volta à pequena casa grande
da Tapera, era tudo que conhecia, sem lobrigar os limites.
Tudo era palpável, atemporal, visão limitada de menina do
campo não permitia enxergar os largos horizontes, não percebia os
problemas sociais e econômicos que pontuavam o Nordeste com forte
veemência, fins do governo Vargas, 1954. O estado de abandono em que
se encontrava o sertão do Ceará naquela época era deplorável.
Meninice mágica, no verdor da infância ingênua, minha alma
era pura em meio às asperezas do sertão. Um rosto sem expressividade
denunciava os maus-tratos da seca. Saboreava sonhos pequenos, e mais
tarde almejava os grandes.
A pequena casa grande da Tapera ficava escondida num alto por
traz da Arapiraca. No alpendre a sombra se derramava. Lavado pelo
vento que tangia as redes estendidas enfiadas nos caibros nos dias
de calor sufocante com o forte mormaço procurava-se aliviar com um
banho no riacho.
Era uma casa dinâmica, alegre, cheia de gente, de animais ao
seu redor, gente que passava, gente que visitava, gente que
negociava, gente que ficava.
Manhã de sol, descer para os baixios para sentir o ar puro,
colher as frutas maduras no pé, escutar o aboio do vaqueiro, tomar
banho no poço da pedra.
Hoje viajando no tempo das minhas lembranças telúricas,
revejo com os olhos do coração, o riacho do Rosário na época da
cheia, às vezes enchendo devagar..., outras vezes, as águas chegavam
arrebatadora, bordando as várzeas com suas águas barrentas. O cheiro
do mato, do arroz, do milho abonecando, exalando aroma agradável,
enchendo as almas sertanejas de alegria. Adiante os algodoais
florescendo a esperança viva do sertanejo. O tempo se esvai ao
vento.
Doce lembrança do mês de junho, o rio secando, a várzea
repleta do canavial esperando o dia do corte. No oitão da casa as
ovelhas balindo; o tropel dos cavalos anunciava a chegada dos
vaqueiros vindo das veredas da manga do gado, espantando as galinhas
no terreiro. O leve ardor da terra misturava-se ao hálito dos
bogaris na faxina do terreiro.
Na cozinha as pamonhas quentinhas na palha do milho, amarradas com
barbantes. O tacho grande de doce de leite, o bule de ágata cheio de
café à beira do fogo para não esfriar. A nata exalando um cheirinho
gostoso, derretendo-se em manteiga no fogo. A bandeja grande redonda
repleta de xícaras com leite mungido da vaquinha cordão de ouro.
Todos em volta ao fogão. Guilhermina bordava um sorriso no rosto.
Devagar caminho para um passado longínquo procurando sentir o
aroma da infância que ficou perdida no silêncio do mundo deserto e
na sombra da noite de céu estrelado bailando ao vento. No silêncio
fico a flanar aguardando o fulgor do relâmpago e o estampido do
trovão para me amedrontar outra vez. Apalpo a terra úmida que sobrou
do orvalho do mês de junho e com doçura quebro o graveto ressequido
do tempo no espinho da distância e toco a vida com muita
expectativa, taciturna navego no intervalo da dor.
Um ar de satisfação transpõe meu pensamento por trás da
cortina do presente, e arrisco um olhar de saudade na vigília do
tempo. Ah! O que importa é minha alma translúcida apaziguando-se
nesse prosaico rosicler do alvorecer resvalando na correnteza da
vida.
Natal – junho de 2006.
VIAGEM DE TREM
O dia amanheceu nublado. A chuva não veio, no entanto, o dono
da pensão bateu à minha porta. Exclamou: O trem logo mais partirá,
são cinco horas! Levantei-me atônita, dormira mal. Rompi o casulo do
cansaço, preparei minha bagagem. Tomei um café amargo e forte, e saí
ladeando a calçada alta da rua do trilho, o céu ainda pardacento.
Tentando acompanhar meu irmão Vicente que andava a passos largos,
bem à frente. Na estação, no ponto final da plataforma avistamos
Arioston e Plínio que caminhavam ao nosso encontro. Companheiros de
inúmeras viagens de Lavras para Cedro.
O trem era aquela coisa inusitada para mim, um transporte
desconhecido em minha infância. Encantava-me com seu formato
quilométrico, desfilando majestoso, com aquelas rodas de ferro sobre
os trilhos bem estreitos. O som rouco e melancólico do seu apito
instigava-me a imaginação, enquanto hoje, me desperta nostalgia e
certo lirismo em conseqüência aos casos românticos e inusitados que
me ocorreram no passado.
O ferroviário puxa a corda do sino, acena para o maquinista.
O trem deu partida. No vagão acomodamos nossos pertences. Saímos de
Lavras, ao som do sacolejo do trem que resfolegava o vapor da
máquina. O cheiro forte de ferro impregnava o ar. Nas poltronas,
passageiros roncavam. Em menos de uma hora chegávamos a Cedro.
Ainda hoje sou capaz de reproduzir em minha mente os sons do atrito
das rodas de ferro nos trilhos em busca de sonhos e transportando
sonhos como o meu. O som rouco do seu apito me causava nostalgia.
Por anos a fios, morando em Fortaleza ao ver a velha locomotiva era
motivo para despertar em mim grande saudade e um choro incontido.
Manhã fugaz, regrada de esperanças e sonhos. Sonhos de conquistar um
espaço inimaginável no futuro.
Despedimos dos colegas, Arioston e Plínio na certeza de logo
mais à tarde nos encontrarmos no colégio São João Batista. Na Rua da
Capela, Rosinha de Pedrinho, em sua casa estava a me esperar com seu
sorriso cativante. Vicente seguia em frente para casa de Toinha.
Rosinha fazia toda sorte de perguntas, queria saber de todos da
família. Servia o café com sua deliciosa tapioca e queijo, cuscuz de
milho zarolho, pão de arroz com gergelim e toda aquela variedade de
guloseima que mãe mandara da Tapera, época de muita fartura.
Conversando alegremente enquanto Rosinha preparava o almoço, fazia
uma rápida visita a irmã Socorro, a Tia Santana que moravam na mesma
rua.
Voltando à casa de Rosinha, me acomodo na sala preparando
meus livros; contava pouco para o toque de meio dia na usina
Natanael Cortês, um convite para dirigir-me ao Colégio São João
Batista, encontrar-me com a turma; no percurso já alcançava Sonia
Costa, não éramos apenas colega, muito mais, uma amiga de verdade.
Quantas trilhas a percorrer. Quantos caminhos e sonhos de uma vida
ceifada.
Natal, 12 de setembro de
2006.
Reflexão
SEMEAR O BEM - O CAMINHO PARA A FELICIDADE
Conta uma fábula, que um pensamento rondava forte a Terra e
fazia muito barulho na floresta. Uma borboleta amarela maravilhada
voava contente, de repente, espeta-se num espinho. Desolada, a ermo,
eis que aparece um menino mágico, aproxima-se e cuidadosamente solta
a borboleta, ela recomeça a alçar altos vôos. Num destes vôos
rasantes ela cai sobre as águas poluídas de um rio onde um peixinho
está tentando salvar-se da poluição. “Comadre borboleta, disse ele,
tenha a santa paciência, estou com muita fome, neste rio só existe
poluição, deixa eu te comer”! A borboleta zangada, assustada, de
asas ensopadas não podendo voar, tentou fugir do peixe e não
consegui.
O pensamento sussurrou no ouvido da borboleta “amiga, sacuda
as asas e tente voar”, ela não conseguiu, mas não desanimou. A Terra
falou mais alto, “vou pedir meu amigo vento para soprar suas asas e
você irá voar”. Nada aconteceu. Aparece o menino mágico e determina,
sacuda as asas! E rapidamente ela saiu a voar.
Transferindo para nossa realidade, ser paciente, perspicaz e
inteligente é posição que devemos assumir como seres humanos que
somos nessa terra. Sejamos como a borboleta amarela!
Fortaleza, julho de 2005.
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DISCURSOS
DISCURSO DE
LANÇAMENTO
“NOBREZA DE UMA MULHER SERTANEJA”
Senhoras e Senhores,
Tenho a honra de saudar a todos neste momento com muita
alegria e prazer. Meus cumprimentos aos meus familiares, minhas
amigas e meus amigos, a nova geração de Guilhermina aqui presente.
Quero deixar explícita a minha satisfação, minha felicidade por
alcançar esta grande conquista de publicar este trabalho, que
considero algo ímpar em minha trajetória.
É bem verdade que, só agora depois de dezesseis anos do
falecimento de minha mãe é que consegui reunir condições para
elaborar este instrumento cuja idéia surgiu e teve início com ela,
ainda em vida. Posteriormente, fiz alguns levantamentos, colhi
alguns depoimentos e numa reflexão ponderada, um estudo minucioso e
despretensioso, é que pude concretizar este sonho. Assim nasceu esse
estudo que traz a missão de registrar, de testemunhar uma idéia, uma
convicção. Na certeza de que estou contribuindo para legar aos
pósteros, dados importantes para quem, no futuro, pretenda escrever
uma genealogia. Consciente desta experiência desafiadora de escrever
esse instrumento e, mais ainda, quando tomei a decisão de tornar
público meus sentimentos e a vida de minha mãe.
Inicialmente, a intenção seria apenas, documentar seus ditos
populares, pois, ela era uma sumidade nesse assunto, bem como
documentar sobre suas meizinhas de ervas medicinais e as receitas
dos seus tradicionais doces. A questão foi se aprofundando, tomando
proporções, o desejo de escrever foi se alargando. Resultou nesta
simples história das “memórias de Guilhermina”.
Evocando Lígia Fagundes Teles, quando diz: “Nós somos a
matéria de nosso passado. É tão bom dividi-los com o outro, que não
nos conhece tanto... Vem, amado leitor, e a ponte que eu tenho para
estender até ele é a minha palavra”. E no dizer de Batista de Lima,
“A língua é o palco de todos os prazeres da linguagem. É nela onde
se abastece o discurso, é a língua que faz a intermediação”. A
intermediação de nos unir neste evento.
Escrever este trabalho, foi muito prazeroso para mim; uma
verdadeira catarse, muito mais que uma veleidade literária. Lidar
com os sentimentos, buscar lembranças adormecidas no âmago do nosso
ser, é tarefa agradável e sublime; é para mim uma forma de sublimar
uma indignação. Auxiliou-me ainda para atenuar os traumas do meu
expatriamento das diversas formas.
Recordando algumas colocações de minha mãe como: “menina
medonha, deixa de malinação, de futrica com livros, vem pra dentro
cuidar dos afazeres de casa”! “Já estou cansada de falar, está me
dando um farnizim no juízo. Vocês sabem como é teu pai! Ainda
recordando os momentos de descanso à noitinha no alpendre da casa da
Tapera, conversando potoca, ela soltava a inspiração, um dedo de
prosa, fazendo loas e versos, tais como estes:
| |
“Subi na bananeira
Segurei no mangará,
Comi banana madura
Até a gata miar”. |
E não
esquecendo seus famosos ditos populares:
“Quem a Deus clama sempre alcança”. “Quem não pode com o pote não
pega na rodilha”. “O exemplo fala mais alto que as palavras”. “Moça
direita não dar cabimento pra qualquer pé rapado”. “Quem tem os
olhos fundos, começa a chorar cedo”.
Dediquei este trabalho as minhas primas e tias e ainda aos que ainda
muito jovens morreram negligenciados em conseqüências das secas no
nosso Ceará, entre esses, a tia Antonia e tio Francisco.
Estou tornando pública a vida de Guilhermina com o título de
“Nobreza de Uma Mulher Sertaneja,” tendo em vista que através de
nossa convivência e dos depoimentos que colhi, observei que ela era
nobre nos sentimentos e sertaneja pura, porque nasceu e morreu
encravada no sertão do nosso Ceará.
Para elaborar este trabalho não segui nenhuma corrente teórica,
nenhum estilo literário, apenas com base nos viés da história,
voltado para o senso comum. Revisado pelo meu amigo Itair Sobral e
Márcio Sales, em seguida, apreciado pelos ilustres escritores,
poetas e críticos literários, Batista de Lima e Dimas Macedo.
Inspirada pela sabedoria dessa gente da TAPERA:
| |
Lugarejo deserto
entre o vale e o morro,
cenário escondido
guardando seu povo,
adentrando a caatinga
onde pasta o touro.
Portas fechadas,
palco sem lida,
hoje desabitada,
sem vida...
Ilusões perdidas
doce guarida!
que o tempo deixou para trás
morada dos Bezerras
ensolarada de nobreza
terra dos arrozais...! |
É-me oportuno neste momento expressar minha satisfação e
prestar meus agradecimentos, em primeiro lugar a Deus, por me ter
permitido concretizar este tão sonhado momento, com o apoio do meu
esposo em toda essa caminhada, a direção do Centro Cultural Dragão
do Mar, e a Livraria Livro Técnico representados por Diana e o sr.
Sérgio, ao professor, escritor e crítico literário Batista de Lima,
que muito me incentivou e prefaciou esse trabalho, a Dimas Macedo,
escritor e poeta por excelência, das Lavras da Mangabeira, pelo seu
grande incentivo. Me reporto para Tapera de corpo e alma e agradeço
à Raimundo Morais e Madrinha, Antonio Morais e Miguelina, Alcides e
Olindina, que me apoiaram de diversas formas, aos meus irmãos aqui
presentes, Seve, Vicente e João e suas respectivas esposas, ao casal
amigo, Itair Sobral e Margarida que estiveram sempre ao meu lado.
Liduina, Olga por suas valiosas contribuições, a Sonia Machado a
neta que mais paparicou Guilhermina, o elegante casal, Márcio Sales,
e Olga sua noiva, a minha amiga e grande incentivadora, Euda
Fernandes, O sr. Geraldo Jesuíno, eis diretor da Imprensa
Universitária, bem como Sandro Vasconcelos, pela incansável
paciência na elaboração do projeto gráfico, a Diana Mano Carvalho
pela sua valiosa contribuição, ao casal de amigos das Lavras da
Mangabeira, Gilson Maciel e Lúcia Macedo, as minhas colegas
orientadoras educacionais, enfim, todas as amigas e amigos aqui
presentes.
Encerrando com o coração na velocidade da correnteza das
águas do Riacho do Rosário nos dias de enchentes, formando remanso,
transportando balseiros em seus mananciais, que um dia carregou-me
desembocando nos verdes mares bravios de Fortaleza.
E agora? Vamos recordar GUILHERMINA, no seu mais tradicional dizer:
“Vamos comer um docinho!
Muito obrigada!
Rosa Firmo
Foortaleza,
06/08/2003
O MENINO E O
SALGADO
Poeta consagrado, um crítico literário de notável expressão,
um divulgador da arte literária através de seus inúmeros artigos, em
jornais, revistas e livros publicados, espalhados por esse Brasil
afora. Vem permeando, enriquecendo a cultura cearense com palestras
e discursos calorosos, recheados de paixão pela arte da escrita.
Membro da Academia Cearense de Letras, é Advogado e Mestre em
Direito professor de Direito da Universidade Federal do Ceará,
membro do Instituto dos advogados Brasileiro e procurador da Estado.
Muito jovem ainda com uma carreira promissora, uma bagagem madura,
inigualável, de uma fértil imaginação e de um estilo invejável de
criticidade que lhe é muito peculiar.
Esse menino salgado de onde veio? Como surgiu esse talento?
Veio de paragens desenvolvidas? Não, esse talentoso Dimas Macedo,
poeta com todas as letras. Toda essa expressão cultural começou num
paraíso perdido, no vale do Salgado, na pequena, antiga e humilde
Lavras da Mangabeira, lá no sul do Ceará. Foi nessa pequena cidade
onde o Dimas iniciou seu mergulho, digo até profundo, nas águas doce
do rio salgado, e vindo a tona atingindo a superfície, flutuando com
seu espírito artístico, exprimindo sua sede de saber e o rio no seu
transbordar arrasta-o na correnteza turbulenta, e lhe transporta no
balseiro cultural, desembocando nos verdes mares bravios de
Fortaleza.
Dimas, ainda menino, declara na sua lira poética, o amor à
sua terra, ao Rio Salgado, de forma terna e apaixonada. Possuidor de
uma inteligência instigadora, ainda menino, devorava insaciavelmente
os livros que chegavam as suas mãos. E com essa perspicácia, energia
infatigável e o desejo de conquistar outros horizontes envereda pelo
árduo caminho da pesquisa, das letras. Muito cedo iniciou suas
produções literárias. Dotado de uma personalidade de multifacetas;
tornou-se poeta, ensaísta, crítico literário, entre outros
atributos. Hoje com uma vultosa projeção cultural, sua acuidade
perceptiva constatada na sua lucidez de consciência se deixa emergir
na esfera da cultura cearense.
É no seu recolhimento que se impregna de conceitos, busca e
justifica com discernimento o seu labor de escritor.
Dimas, com essa caminhada a passos largos persiste através do seu
discurso, de sua poesia, purificar as águas do Salgado com sua
tessitura poética.
Rosa Firmo
Fortaleza – 19 – 06
–2003
Amor e Paixão
Rosa Firmo
Na certeza que a vida é uma canção de amor e perpassa muros
intransponíveis deduzi que, só posso viver intensamente se estiver
apaixonada. E estou apaixonada por mim mesma, pela minha teimosia e
pela coragem de libertar-me de obstáculos que às vezes me
surpreendem, e estou apaixonada pelos meus novos projetos. No
passado sofri com meus defeitos, minhas deficiências físicas, às
vezes insuportáveis, hoje praticamente superados. Gosto do meu
cabelo, do meu sorriso, dos meus olhos grandes, embora com as rugas
que despontam me incomodando, considero, pois, que elas fazem parte
da matéria humana da qual sou composta. Estou aprendendo conviver
com elas.
Sou apaixonada pelo AMOR, o amor sob todas as formas, pois é
amando a tudo e a todos que enfrentamos e vencemos obstáculos, entre
eles o próprio tempo...
O amor doação é o verdadeiro amor que supera que transcende
nosso ser espiritual, ajudando a aceitar nossa incompletude de ser
humano que somos. E’ a paixão, o amor que me inspira que me conduz e
faz transbordar o pensamento em poemas.
Sou apaixonada pela vida, mesmo nas horas de tristeza porque sei que
Deus vestiu-nos com mantos de esperanças com fibras de fortaleza e
nos concedeu sabedoria e amor para não nos arrastar- nos dos vales
escuros.
Sou uma apaixonada pelo meu parceiro, bem como por minhas
amigas e amigos. Tenho muitas amigas e amigos, é muito gratificante
para mim, procuro preservá-los, Há um ser imaginário que povoa minha
mente e me animo com ele.
Estou apaixonada pela literatura, e outras artes que me fascinam,
como a música a pintura.
Amo a gleba onde nasci. Tenho um sentimento ardente pela
minha bela Fortaleza, e sou apaixonada por Natal/RN, que é uma
verdadeira obra de arte, uma espécie de paraíso proibido, uma
expressão poética. A cidade do Natal transpira poesia.
A vida é o AMOR, o amor gratuito que recebemos do Cosmo.
Nessa perspectiva de ser pessoa amando a vida caminho em direção ao
mar, da brisa amena que sopra trazendo bonança, escuto a voz do
silêncio que ecoa com uma voz meiga como a mãe que acalenta o filho,
dando-lhe certeza de proteção.
Vejo a vida como um presente de Deus. E nesse turbilhão do
AMOR maior, o amor doação que emerge de diferentes formas na voz
poderosa e segura do Senhor que indica o caminho certo a tomar e
seguir amando inundando o coração de paz.
Acato o amor que a vida me dar, bem como as pessoas que me dão
apoio, amizade, carinho e amor, e em troca devoto o meu tributo e
retribuo com muita intensidade.
“O amor é doce como os acordes da lira”, e nessa doçura
escuto o som da lira e enlevada pela musicalidade do amor que
transcende meu ser, deixo-me guiar pela vida afora nos braços do
luar e numa chuva calma de poesia.
Acredito na vida, e trilhando como aventureira na
complexidade de ser pessoa, encaro-a como as estações do ano. A
primavera é como a noiva no traje nupcial, o verão é o tempo de
colhermos o nosso investimento, o outono é o murmurar dos corações
num apelo ao que há de vir, o inverno representa a saudade, o fim de
uma temporada.
Para ser feliz, o ideal é acerca-se de amor e viver sempre na
primavera.
Ainda é tempo
Rosa Firmo
Nossos sentimentos nossas emoções são interligados ao nosso
sistema biológico. Eles são os pilares de sustentação do nosso
autocontrole. Portanto, segundo Drauzio Varela, quando escondemos,
reprimimos nossos sentimentos para demonstrarmos que somos fortes ou
por outros motivos, estes respondem em forma de doenças como
gastrites, úlceras, dores lombares, dor na coluna, artrose,
artrites, depressão, e com o tempo a força da repressão represada se
degenera em câncer.
Para evitarmos os vilões que afetam nosso bem estar, nossa
saúde, é importante procurarmos alguém para um desabafo.
Confidenciar nossas mágoas, partilhar nossas intimidades, nossos
segredos, nossos pecados é algo acalentador. O diálogo, a palavra,
são grandes aliados, melhores que remédio, é também uma excelente
terapia. “Confias teus segredos e verás que nunca estais sós”.
Sejamos, pois, protetores das pessoas negativas e carentes de afeto
para torná-las mais positivas e alegres. Embora que elas suguem
nossas energias. Cerquemó-las de amor e carinho. Com o passar do
tempo teremos o retorno.
Quando doamos qualquer ajuda e afeto às pessoas positivas,
acrescenta-se muito pouco no nosso crescimento humano. O percentual
é bem mais alto quando doamos às pessoas carentes.
Reserve um tempo para exercitar a espiritualidade, a prática de
exercício de respiração e relaxamento, meditação, a oração, recitar
poemas, atuar como voluntário em ações sociais, são formas de
exercitarmos nossa espiritualidade.
Ainda é tempo!
Natal, 2006
Convite a um
exercício de mudança
Rosa Firmo
“A vida é uma frase interrompida”
Victor Hugo
Somos seres humanos, com tendências para as coisas positivas
e negativas. Se fizermos as nossas atividades diárias com
perseverança somos capazes de realizarmos grandes feitos. Se
estivermos passando por alguma dificuldade e atentarmos para algumas
alternativas observaremos as possibilidades de superá-las fazendo
mudanças. Sejamos cautelosos, comecemos devagar, vamos dar início
pelas coisas mais simples.
Procure alguém de sua inteira confiança para fazer seus
desabafos. Não tome todos os seus conselhos, selecione os que mais
irão se adequar a você. Tome apenas conselhos sábios que darão rumos
a sua vida. Escute sua voz interior. Faça em primeiro lugar as
mudanças exteriores.
Procure mudar seu modo de vestir-se, doe objetos que não
utiliza com freqüência ou que trazem recordações negativas, mude os
móveis de lugares, sem comprar coisas novas, faça contenção de
despesas. Mude seus hábitos alimentares. Mude sua rotina, tudo que é
rotineiro torna-se enfadonho. Passe a observar as qualidades das
pessoas, cumprimente-as. Evite pessoas que reclamam de tudo e
propagam rancor e espalham energia negativa. Converse com seus
amigos e amigas, dedique um tempo para freqüentar novos ambientes e
fazer novas amizades. Procure recordar os momentos positivos, de
coisas e lugares que lhe trazem boas recordações.
Leia livros ou periódicos que trazem conteúdos interessantes e
positivos, evite leituras de conteúdos drásticos e que banalizam a
violência, o sexo e o amor. Estes temas causam ansiedade, angústia e
estresse. Procure preparar sua alimentação a mais natural possível,
evite os alimentos industrializados, os produtos naturais contribuem
para a saúde mental e física.
Visite locais de descontração como parques, praias, jardins,
curta-os colhendo o aroma da natureza e colha seus benefícios.
Contemple o ambiente meditando sobre os elementos mais simples da
natureza, como os insetos, os pássaros, as plantinhas pequenas.
Eleve o pensamento a Deus e agradeça.
Procure esquecer assuntos que no passado proporcionou-lhe
tristeza, dissabores, não guarde rancor. Livre seu coração, sua
mente e seu corpo de sentimentos destrutivos. Só você pode fazer
isso.
Erga o pensamento para o que é positivo e sublime. Pratique a
solidariedade e o amor doação.
Esforce-se para estabelecer mudanças esquecendo ações que lhe
causam perturbações, despreze o egoísmo e a inveja, compreenda que
para construir a felicidade é somente através da prática do bem.
Necessitamos, assim, fazermos esses exercícios diários para
aprendermos viver os instantes da nossa vida com mais estabilidade e
equilíbrio. Lembre-se da sensibilidade de um colibri, de uma abelha
colhendo o néctar de uma flor, da luz do luar, da brisa macia que
acaricia nosso rosto. Com esses procedimentos poderemos mergulhar no
universo do equilíbrio e da harmonia na busca da paz interior e do
cosmo.
Roteiro Turístico da
Cidade de Aracaju
“É sempre hora de partir
e recomeçar”.
Arara e caju deram origem a uma bela cidade, Aracaju. Ante as demais
capitais do nordeste brasileiro é ainda pacata muito arborizada e
silenciosa, embora se aproximando aos ares de metrópole com o
progresso urbanístico em aceleração. Permite ainda uma certa
qualidade de vida. Os traços arquitetônicos, o antigo, o rio, o mar,
as pontes, a simplicidade e o aconchego são coisas profundas que
permitem aflorar os sentimentos como fonte que brota do rochedo.
Aracaju dos
papagaios, dos frondosos cajueiros, dos coqueirais, dos manguezais,
das mangabas dos rios e pontes ah, as cocadas. Quanta delícia para
uma visitante sensível e ao mesmo tempo profunda e errante, ávida
por desvendar segredos; novas conexões entre o mundo de paisagens
artificiais e o mundo natural.
“A vida tem sons que
para a gente ouvir precisa começar de novo”.
Na
manhã, de 27 de março, cedinho, pousando os olhos sobre a bela
paisagem do mar de águas turvas, da varanda do hotel, na orla da
praia de Atalaia, deparei-me com a algazarra dos sanhaçus, e dos
pardais e com o cheiro dos manguezais, inebriei-me e deixei-me
enlevar pela fina chuva que desfiava. Como gosto de chuva, recebi
como um presente daquela terra que acabara de me receber e que muito
desejava conhecê-la.
“Preciso aprender
começar de novo”
Entre o congresso e conhecer a foz do Rio São Francisco, optei pelo
segundo, claro, era meu objetivo maior. Em um transporte da empresa
de turismo, Nozes Tur, parti para o município de Brejo Grande, entre
outros turistas gaúchos, para no ancoradouro apanharmos o catamarã e
navegar por duas horas nas águas do São Francisco até sua foz. Foram
momentos de energização e introspecção com o divino. Um total
desprendimento do real como se estivesse sitiando a orla do paraíso.
Uma hora desfrutando da paisagem de águas mansas, emoldurada por
verdejantes coqueirais. No momento da chegada do encontro das águas
do rio com o mar, meus olhos vibraram de tanto encantamento, com
tamanho esplendor e magia, que ficará para sempre na minha memória.
Voltamos para o ponto de partida, porém meu desejo era de ali
permanecer, ficar imóvel, inerte e nunca mais voltar à realidade.
Resgatar a memória da
inclemência do tempo é preservar nossa identidade.
No domingo, após
o encerramento do congresso eu, a Maria do Céo e Maria Helena,
dirigimo-nos para as cidades históricas: Laranjeiras e São
Cristóvão. Laranjeiras por si só é um museu a céu aberto, Igrejas,
casarios, pedras seculares, nos deleitam com olhares do passado.
Há uma
ponte toda em pedra muito antiga sobre o Rio Cotiguiba, conhecida
como ponte do matadouro. Sabe-se que no século XVIII nesse rio
navegavam navios cargueiros saindo de Recife para o do Rio de
Janeiro e Santos São Paulo. Quando o navio demandava o canal de
acesso ao Porto de Aracaju foi apanhado por fortes vagalhões,
batendo no fundo e desgovernando-se. Partiu ao meio após a tentativa
de resgate, no ano de 1873. Informações do guia e de moradores
locais.
A vetusta São Cristóvão fundada no ano de 1590, por Cristóvão de
Barros, considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil, a
primeira capital de Sergipe. A cidade nos encanta com seu fabuloso
acervo de obras sacras, seu museu é um dos mais importantes do país
com cerca de quinhentas peças dos séculos: XVII, XVIII e XIX. O que
muito me chamou a atenção foi um antigo harmônio do século XIX, que
ainda é possível arrancar um som quando se põe o pé nos seus pedais.
Fez-me recordar a um semelhante que existia na Igreja de minha terra
natal.
Não resitei,
seria impossível ficar indiferente deixando de registrar sobre os
encantos que Aracaju nos oferece.
Rosa Firmo
Natal/06/04/08
O VELHO CIRCULAR
Manhã alegre do mês de junho, a cidade de São Vicente caminhava
devagar. O velho comércio se movimenta lento, abrigando o maior
número de pessoas oriundas dos sítios a procura de resolver seus
pequenos negócios como, receber a aposentadoria, fazer a feira da
carne, do sal, da farinha, do feijão, até mesmo de frutas e
verduras, quando sobra algum trocado, até porque na maioria dos
sítios do município quase sempre não se usam o cultivo de
hortaliças, bem como da fruticultura.
As portas
dos Correios, da agência lotérica e das agências bancárias, estavam
empilhadas de gente se espremendo debaixo do sol escaldante
tentando receber o vale gás, vale alimentação, bolsa escola, enfim
as esmolas do governo, que não passam de verdadeiros vales de
lágrimas. Um paliativo qualquer. Imaginem! Jovens, senhoras, e
senhores, pessoas de bom caráter, como poderão melhorar a qualidade
de vida se perdem dias em filas aguardando receber estes vales? Como
poderão melhorar de vida, se o lavrador abandona o cultivo da terra
em troca dos benefícios do governo federal?
As linhas de ônibus circulam entre os municípios vizinhos
transportando a população carente sem perspectiva. Lia-se no rosto
sofrido das pessoas a incerteza do por vir. No velho circular,
com destino a Cedro, cedo uma velhinha fora jogada na primeira
poltrona. Dois jovens trouxeram-na arrastando-a pelos braços e a
desprezaram-na no ônibus a espera da partida, que decorreu por mais
ou menos meia hora. Cochilando a velhinha cai por cima do passageiro
vizinho. A saliva seca e branca que expelida pela boca aberta e
ofegante, servindo de alimento para as moscas que zuniam festejando
seu rosto inerte.
Lentamente as pessoas fora ocupando as cadeiras do velho circular.
Motorista animado, tentando conquistar as passageiras. Ele não
perdia oportunidade.
O circular dera sinal de partida. Alguém gritou: falta a Tiana,
ainda não comprou o açúcar, o José, que foi comprar a cebola.
Finalmente, o ônibus sai se arrastando. Pára na primeira esquina, o
motorista não tem
pressa, quer agradar todos os
passageiros. É a concorrência entre os transportes
alternativos. Uns já saem mais cedo, lotados. Ao sair da cidade pára
no primeiro sítio. Desce uma pessoa. E nessa vagareza, sai parando,
parando, afundando-se nos buracos da estrada íngreme, malcuidada,
adentrando por grotas afora.
A conversa no circular ficara animada - Duda, uma jovem
mulher, falava para Francisca: “quando eu me aposentar pelo
FUNRURAL, não vou comprar luxo. Em primeiro lugar vou tratar
de comprar minha comida melhorzinha. Depois vou mobiliar minha
casa, vou viajar. A gente num viaja de graça? é o que o povo fala!”.
Não quero fazer como dona Vicência; divide todo o aposento com os
cinco filhos desempregados da roça e ainda sustenta três netos”.
Enquanto isso a velhinha dormia sossegada, embalada pela conversa
dos passageiros. O solavanco do circular, a poeira fina e
avermelhada circulava pelo ar mudando de cor a toalha da
velhinha.
Meio dia! O
circular faz uma parada principal em São José de Mãe Veia. Na saída
da cidade, o motorista desemboca numa grota. O ônibus se inclinava a
ponto de virar nas quebradas. Imaginem! Toda essa aventura tem um
motivo forte: deixar na porta de casa, a jovem senhora que ele
tentava conquistá-la.
Conversa demorada. Prossegue-se a viagem, muitas outras paradas até
alcançar o riacho do Machado. Entra e saem passageiros, uns
transportando galinha, burreguinho, outro um balaio de milho verde.
Finalmente chega-se a Cedro, ponto final. O motorista conquistador
leva o último passageiro até a porta de sua casa, ainda puxa uma
conversinha, se apresentou e agradeceu todo animado, convidando para
um breve retorno.
Fortaleza, 12 de julho de 2002
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